Helena tinha os predicados proprios a captar a confiança e a affeição da familia. Era docil, affavel, intelligente. Não eram estes, comtudo, nem ainda a belleza, os seus dotes por excellencia efficazes. O que a tomava superior e lhe dava probabilidade de triumpho era a arte de accomodar-se ás circumstâncias do momento e a toda a casta de espiritos, arte preciosa, que faz habeis os homens e estimaveis as mulheres. Helena praticava de livros ou de alfinetes, de bailes ou de arranjos de casa, com egual interesse e gôsto, frivola com os frivolos, grave com os que o eram, attenciosa e ouvida, sem entono nem vulgaridade. Havia nella a jovialidade da menina e a compostura da mulher feita, um accôrdo de virtudes domésticas e maneiras elegantes, complexo de cousas na apparencia oppostas, mas não inconciliaveis nem disparatadas entre si.
Além das qualidades naturaes, possuia Helena algumas prendas de sociedade, que a tornavam acceita a todos, e mudaram em parte o theor da vida da familia. Não falo da magnifica voz de contralto, nem da correcção com que sabia usar della, por que ainda então, estando fresca a memoria do conselheiro, não tivera occasião de fazer-se ouvir. Era pianista distincta, sabia desenho, falava correntemente a lingua franceza, um pouco a ingleza e a italiana. Entendia de costura e bordados e toda a sorte de trabalhos feminis. Conversava com graça e lia admiravelmente. Mediante os seus recursos, e muita paciencia, arte e resignação,—não humilde, mas digna,—conseguia polir os asperos, attrahir os indifferentes e domar os hostis.
Pouco havia ganho no espirito de D. Ursula; mas a repulsa desta ja não era tão viva como nos primeiros dias. Estacio cedeu de todo, e era facil; seu coração tendia para ella, mais que nenhum outro. Não cedeu porém sem alguma hesitação e dúvida. A flexibilidade do espirito da irmã afigurou-se-lhe a principio mais calculada que expontanea. Mas foi impressão que passou. Dos proprios escravos não obteve Helena desde logo a sympathia e boa vontade; esses pautavam os sentimentos pelos de D. Ursula. Servos de uma familia, viam com desaffecto e ciume a parenta nova, alli trazida por um acto de generosidade. Mas tambem a esses venceu o tempo. Um só de tantos pareceu vel-a desde princípio com olhos amigos; era um rapaz de 16 annos, chamado Vicente, cria da casa e particularmente estimado do conselheiro. Talvez esta ultima circunstância o ligou desde logo á filha do seu senhor. Despida de interesse, porque a esperança da liberdade, se a podia haver, era precaria e remota, a affeição de Vicente não era menos viva e sincera; faltando-lhe os gozos proprios do affecto,—a familiaridade e o contacto,—-condenado a viver da contemplação e da memoria, a não beijar sequer a mão que o abençoava, limitado e distanciado pelos costumes, pelo respeito e pelos instinctos, Vicente foi, não obstante, um fiel servidor de Helena, seu advogado convicto nos julgamentos da senzala.
Ás pessoas da intimidade da casa acolheram Helena com a mesma hesitação de D. Ursula. Helena sentiu-lhes a polidez fria e parcimoniosa. Longe de abater-se ou vituperar os sentimentos sociaes, explicava-os e tratava de os torcer em seu favor,—tarefa em que se esmerou superando as obstaculos na familia; o resto viria de si mesmo.
Uma pessoa, entre os familiares da casa, não os acompanhou no procedimento reservado e frio; foi o padre-mestre Melchior. Melchior era capellão em casa do conselheiro, que mandara construir alguns annos antes uma excellente capella na chacara, onde muita gente da vizinhança ouvia missa aos domingos. Tinha sessenta annos o padre; era homem de estatura mediana, magro, calvo, brancos os poucos cabellos, e uns olhos não menos sagazes que mansos. De compostura quieta, e grave, austero sem formalismo, sociavel sem mundanidade, tolerante sem fraqueza, era o verdadeiro varão apostolico, homem de sua Egreja e de seu Deos, integro na fe, constante na esperança, ardente na caridade. Conhecêra a familia do conselheiro algum tempo depois do consorcio deste. Seu olhar penetrante descobria a causa da tristeza que minou os ultimos annos da mãe de Estacio; respeitou a tristeza, mas attacou directamente a origem. O conselheiro era homem geralmente razoavel, salvo nas cousas do amor; ouviu o padre, prometteu o que este lhe exigia, mas foi promessa feita na areia; o primeiro vento do coração apagou a escriptura. Entretanto, o conselheiro ouvia-o sinceramente em todas as occasiões graves; e o voto de Melchior pesava em seu espirito. Morando na vizinhança daquella familia, tinha alli o padre todo o seu mundo. Se as obrigações ecclesiasticas não o chamavam a outro lugar, não se arredava elle de Andarahy, sítio de repouso apos trabalhosa mocidade.
Das outras pessoas que frequentavam a casa e residiam no mesmo bairro de Andarahy, mencionaremos ainda o Dr. Mattos, sua mulher, o coronel Macedo e dous filhos.
O Dr. Mattos era um velho advogado que, em compensação da sciencia do direito, que não sabia, possuía noções muito aproveitaveis de meteorologia e botanica, da arte de comer, do voltarete, do gamão e da política. Era impossivel a ninguem queixar-se do calor ou do frio, sem ouvir delle a causa e a natureza de um e outro, e logo a divisão das estações, a differença dos climas, influência destes, as chuvas, os ventos, a neve, as vasantes dos rios e suas enchentes, as marés e a pororoca. Elle fallava com egual abundancia das qualidades therapeuticas de uma herva, da nomenclatura scientifica de uma flor, da estructura de certo vegetal e suas peculiaridades. Alheio ás nobres paixões da política, se abria a boca em tal assumpto era para criticar egualmente de luzias e saquaremas,—os quaes todos lhe pareciam abaixo do paiz. O jogo e a comida achavam-no menos sceptico; e nada lhe avivava tanto a physionomia como um bom gamão depois de um bom jantar. Éstas prendas faziam do Dr. Mattos um conviva interessante nas noites que o não eram, como o loto é o jogo por excellencia nas occasiões em que outro qualquer é impossivel. O Dr. Mattos era o loto da sociedade, com a mesma monotonia dos anexins. Posto soubesse effectivamente alguma cousa dos assumptos que lhe eram mais prezados, não ganhou o peculio que possuia, professando a botanica ou a meteorologia, mas applicando as regras do direito, que ignorou até á morte.
A esposa do Dr. Mattos fôra uma das bellezas do primeiro reinado. Quando as graças physicas se alliam ás do espirito, a belleza póde esvair-se, que ainda lhe fica a alma. D. Leonor era uma rosa fanada, mas conservava o aroma da juventude. Algum tempo se disse que o conselheiro ardêra aos pes da mulher do advogado, sem repulsa desta; mas só era verdade a primeira parte do boato. Nem os principios moraes, nem o temperamento de D. Leonor lhe consentiam outra cousa que não fosse repellir o conselheiro sem o molestar. A arte com que o fez illudiu os malévolos; dahi o sussurro, ja agora esquecido e morto. A reputação dos homens amorosos parece-se muito como juro do dinheiro: alcançado certo capital, elle proprio se multiplica e avulta. O conselheiro desfructou essa vantagem, de maneira que se no outro mundo lhe levassem á collumna dos peccados todos os que lhe attribuiam na terra, receberia elle dobrado castigo do que mereceu.
O coronel Macedo tinha a particularidade da não ser coronel. Era major. Alguns amigos, levados de um espirito de rectificação, começaram a dar-lhe o titulo de coronel, que a princípio recusou, mas que afinal foi compellido a acceitar, não podendo gastar a vida inteira a protestar contra elle. Macedo tinha visto e vivido muito; e, sôbre o peculio da experiencia, possuia imaginação viva, fertil e agradavel. Era bom companheiro, folgazão e communicativo, pensando serio quando era preciso. Tinha dous filhos: um rapaz de vinte annos, que estudava em S. Paulo, e uma moça de vinte e tres, mais prendada que formosa.
Nos primeiros dias de agosto a situação de Helena podia dizer-se consolidada. D. Ursula não cedêra de todo, mas a convivencia ia produzindo seus fructos. Camargo era o unico irreconciliavel; sentia-se atravez de suas maneiras cerimoniosas uma a versão profunda, prestes a converter-se em hostilidade, se fôsse preciso. As demais pessoas, não só domadas, mas até enfeitiçadas, estavam ás boas com a filha do conselheiro. Helena tornara-se o acontecimento do bairro; seus ditos e gestos eram o assumpto da vizinhança e o prazer dos familiares da casa. Por uma natural curiosidade, cada um procurava em suas reminiscencias um fio biographico da moça; mas do inventário retrospectivo ninguem tirava elementos que podessem construir a verdade ou uma só parcella que fôsse. A origem da moça continuava mysteriosa; vantagem grande, porque o obscuro favorecia a lenda, e cada qual podia attribuir o nascimento de Helena a um amor illustre ou romanesco,—hypotheses admissiveis, e em todo o caso agradaveis a ambas as partes.