No quarto dia chegou a familia de Camargo, sabendo da doença de Helena apressou-se a ir a Andarahy. Ao ver Eugenia, a moça sorriu tristemente, lampejo de inveja, que para logo se apagou e morreu no coração.
Estacio mal ousava entrar na alcova da doente e não podia viver fóra della. Sua afflicção era patente. Elle promettia a si mesmo todos os sacrificios em troca da vida de Helena, espreitava uma esperança no rosto do médico, e interrogava o coração da tia e do padre. Na noite do setimo dia da scena do jardim, D. Ursula, que ficára ao pe de Helena, mandou chamar á pressa o sobrinho e o padre Melchior, que estavam na sala contigua. Accorreram os dous. Helena tivera uma syncope, que D. Ursula cuidára ser a morte. Voltando a si, leu a moça a sua sentença no rosto de todos tres.
—Ainda não, murmurou ella: ainda não é a morte.
D. Ursula chegou-se-lhe mais perto, beijou-a, disse-lhe algumas palavras de conforto.
—Deixe estar, respondeu ella, deixe que eu não morro; estou só muito doente.
Estacio buscou animal-a, mas a voz morreu-lhe ás primeiras expressões, e elle sahiu. Melchior acompanhou-o.
—Uma cousa poderia talvez saval-a, disse afflicto o moço; era o presença do pae. Vou mandal-o procurar por toda a parte. Havemos de achal-o; é preciso que o achemos.
Melchior approvou a ideia do mancebo: e não lhe disse que o remedio viria talvez tarde, se viesse. Estacio ordenou as cousas para a seguinte manhã. Voltaram á alcova da enferma. Ésta fechara os olhos como se dormisse. Houve então entre aquellas quatro paredes meia hora de silêncio, interrompido apenas, de quando em quando, pelos movimentos que a doente fazia, como a querer mudar de posição. No fim desse tempo, abriu os olhos e murmurou algumas palavras. Chegou o médico, viu-a e desenganou a familia.
Em quanto Melchior dava as ordens precisas para que Helena tivesse os socorros espirituaes, Estacio sahiu dalli, para ir, longe, desabafar seu desespêro; desceu á chacara, vagou por ella delirante, a soluçar como uma creança, ora abraçado a uma árvore, ora ajoelhado e pedindo a Deus a vida de Helena. Seu coração não conhecia o fervor religioso; mas a imagem da morte deu-lhe o que a vida lhe levára, e elle rezou, rezou sosinho, sem hypocrisia nem dúvida. Mendonça veiu achal-o nessa lucta derradeira entre a realidade e a esperança. Não o consolou; seu peito não tinha consolações que distribuir, porque tambem a dor lhe devastára o coração. Nos braços um do outro, choraram o mesmo bem que se lhes ia embora.
Um escravo veiu chamar Estacio á pressa; elle subiu tropego as escadas, atravessou as salas, entrou desvairado no quarto, e foi cahir de joelhos, quasi de bruços, juncto ao leito do Helena. Os alhos desta, ja volvidos para a eternidade, deitaram um derradeiro olhar para a terra, e foi Estacio que o recebeu,—olhar de amor, do saudade e de promessa. A mão pallida e transparente da moribunda procurou a cabeça do mancebo; elle inclinou-a sobre a beira do leito, escondendo as lagrymas e não se atrevendo a encarar o final instante. Adeus!—suspirou a alma de Helena rompendo o envolucro gentil. Era defuncta.