Durante as primeiras horas seu coração mordeu rebelde o freio da necessidade. A vigilia foi longa e crua; e a reflexão veiu emfim dominar a tempestade interior, ou antes alumiar seus destroços. Elle viu que o padre tinha razão; que era fôrça desfolhar a esperança de um dia. Ao mesmo tempo, o exemplo de Helena deu-lhe ânimo. Senhora do segrêdo de seu nascimento, e consciente de amar sem crime, a moça apressára, não obstante, o casamento de Estacio e escolhêra para si um noivo estimado apenas. Se uma vez a palavra delatora lhe rompeu dos labios, ella a retrahiu logo, fazendo o mais obscuro dos sacrificios.

Não quiz Estacio ser menos generoso. Logo de manhã escreveu a Mendonça, pedindo-lhe que não deixasse de os ir visitar nesse dia. Não o fez sem custo, mas fel-o sem arrependimento. Tinha por fim apressar o casamento de Helena e o seu, condemnando-se a soffrer calado os golpes do avêsso destino.

A manhã, entretanto, não trouxe a Helena o esquecimento e a paz. A noite não lhe serviu de remedio, antes legou á aurora toda a sua mortal angústia. Debilitada, nervosa, impaciente, não podia a moça vencer-se nem supportar-se. Ora repellia com sequidão as boas palavras de D. Ursula; ora lhe pedia intercedesse com Estacio para a resolução que ella admittia como unico meio de a poupar á vergonha. A excitação moral era grande; cumpria aquietal-a por meios persuasivos. Helena fugia a todos: não encarava Estacio e D. Ursula sem que o pêjo lhe colorisse a face, mudança tanto mais visivel, quanto que a vigilia e a dor a tinham empallidecido singularmente. Diziam-lhe que a vontade do conselheiro estatuira uma lei na familia, segundo a qual ella continuava a ser parenta como d'antes, e tão amada como era. A moça agradecia a generosidade, mas não podia fugir á ideia de haver contribuido para uma usurpação. Seu desejo capital era que a deixassem ir ter com o pae, ao pe de quem a natureza e sua consciencia lhe indicavam que poderia estar sem remorso. Estacio e D. Ursula respondiam-lhe com affagos e protestos; mas quando viram que estes eram inuteis, não houve mais que revellar-lhe a carta de Salvador.

O padre Melchior incumbiu-se de lhe fazer essa delicada communicação.

—Seu pae, disse elle, praticou em seu favor um acto heroico; fugiu para lhe não fazer perder a consideração e o futuro. Leia ésta carta, e veja se ella lhe dá a fôrça necessaria para resistir.

Helena pegou na carta com soffreguidão; leu-a de um lance d'olhos. O gemido que lhe rompeu do coração mostrou bem a profundez da ferida que acabava de receber. O padre acolheu-a lacrymosa e esvaecida em seus braços; disse-lhe palavras de conforto e de esperança. Nos primeiros minutos, Helena nada pôde ouvir; o golpe ensurdecêra a alma. Melchior fel-a sentar ao pe de si; ella obedeceu sem consciencia. Apos alguns minutos de silêncio e concentração, a moça dirigiu a palavra ao padre, e agradeceu-lhe a caridade. Depois referiu-lhe os acontecimentos de sua infancia, os mesmos que o capellão ouvira. A sagacidade natural de seu espirito cedo lhe fizera ver que a posição de sua mãe não era a mesma das outras mães; essa descoberta porém não teve outra virtude mais que communicar a seu amor de filha uma intensidade e energia capazes de affrontar os mais fortes obstaculos, como se ella quizesse reunir em si toda a somma de affectos e respeitos que a sociedade afiança ás situações regulares. Melchior ouviu-a commovido; seu coração, nutrido da medulla do Evangelho, reconheceu um effeito da graça divina nesse amor immaculado, que valia por todas as absolvições da terra. Elle a applaudiu e confortou; falou-lhe do futuro, do carinho de sua familia,—sua, a despeito de tudo; emfim da obrigação em que ella estava de corresponder a tanta confiança.

Talvez Helena, em sua razão, correspondesse aos conselhos de Melchior; mas a razão é o que menos a dirigia naquellas circumstâncias afflictivas. Ella deixou o padre para recolher-se a seus aposentos, Quando D. Ursula alli foi, meia hora depois, achou-a profundamente abatida; a violencia da crise passára. A linguagem que lhe falou foi maternal, ungida de amor e perdão; Helena ouviu-a agradecida, mas um sorriso descorado e sem convicção lhe entre-abria os labios. Suppunha ler commiseração onde havia affecto e respeito; e seu orgulho rebellava-se de inspirar o unico sentimento que a consciencia lhe dizia merecer.

As instancias de D. Ursula para que Helena se alimentasse foram inuteis; ella apenas recebia o que bastava para não sucumbir á fome. A companhia repugnava-lhe; assim, poucas vezes a viram desde os dias que se seguiram áquella funesta manhã. Mendonça não conseguiu mais do que os outros. A familia teve o cuidado de annunciar que Helena se achava enferma. A afflicção do noivo foi grande; mas todos buscaram tranquilizal-o. Nada havendo transpirado do acontecimento, facil foi sustentar aquella explicação.

Melchior encommendára muito á familia que vigiaste a moça, cujo espirito lhe parecia atrevido e tenaz; elle receiava que Helena ou fugisse de casa, ou recorresse a algum acto de desespêro. O summo padre desvellou-se em trazer a alma de Helena ao sentimento da resignação, A autoridade de seu caracter religioso, a influência que elle tinha no espirito de Helena eram armas poderosas, temperadas como amor verdadeiro e paternal que o ligava á donzella. Nada poupou; mas seus esforços não tiveram mais fructo, que os da familia. Helena mal podia tolerar a situação.

Uma vez, como ella descesse á chacara, sahiu Estacio a procural-a, não a encontrando senão ao cabo de alguns minutos. Achou-a ao pe do tanque, no lugar em que lhe falára poucos dias antes, sentada no mesmo banco de pau. Vendo-o, estremeceu; elle approximou-se contente de a haver encontrado emfim. O dia estava feio; grossas nuvens negras pejavam o ar, humidas de temporal proximo. Estacio convidou-a a recolher-se.