Salvador mostrou a caixinha que collocára sôbre a mesa.
—Um dia, almoçando em um botequim, li a notícia da morte do conselheiro. O facto consternou-me; mas eu peço licença para lhes dizer tudo; de envolta com o sentimento, de pezar, houve em mim alguma cousa semelhante a uma satisfação. Respirava enfim! O contracto expirava com elle; eu ia entrar na posse de minha filha. Não escrevi desde logo a Helena; fil-o ao cabo de alguns dias. Tive duas respostas: a primeira era no sentido da minha carta; a segunda annunciava-me que o conselheiro a reconhecêra por testamento. Podia procurar e ler-lhes a segunda carta: é um documento da elevação dos sentimentos daquella menina. Exprimia-se com a maior gratidão e saudade a respeito do conselheiro; mas negava-se a aceitar o favor posthumo. Sabendo a verdade, não queria escondel-a ao mundo. Acceitando o reconhecimento, entendia que prejudicava direitos do terceiro, além de repudiar-me solennemente, o que não queria fazer desde que adquiria a liberdade de acção. Entre a herança e o dever, dizia ella, escolho o que é honesto, justo e natural. Esta carta tirou-me o somno uma noite inteira, perplexo como fiquei entre o acto do finado e a resolução da herdeira. Que mão invisivel tocára no coração do conselheiro essa corda de sensibilidade? Melhor fora que elle houvesse traduzido era uma simples lembrança a affeição que tinha a Helena. Longo tempo reflecti nisso; o pae luctava com o pae. Tel-a commigo era a minha ventura, o meu sonho, a minha ambição; era a realidade que eu chegára a tocar com as mãos. Mas podia atal-a ao carro decrepito da minha fortuna, dar-lhe o pão amargo, que era o meu lote de todos os dias? A familia do conselheiro ia afiançar-lhe futuro, respeito, prestigio; a lei ia amparal-a. Perguntei a mim mesmo, se depois de haver morrido para o mundo, me era licito resuscitar para reclamar e rehaver um titulo de que me havia despojado; finalmente se possuia ja o direito de fazer um escandalo. Éstas reflexões, se viessem sos, teriam triumphado desde logo; mas, em opposição a ellas, vieram as suggestões do coração. Adverti que, cedendo á vontade do morto, cavaria um abysmo entre mim e Helena, e que não mais, ou só raramente e a o occultas, podia desfructar, a felicidade de lhe dizer que a amava, de ouvir a mesma palavra de seu coração. Nessa lucta gastei tres longos dias. Helena escreveu-me outra carta, insistindo na resolução que dizia haver tomado. Urgindo responder-lhe, fil-o sacrificando-me, não a convenci. Procurei ter uma entrevista com ella. Não era facil; mas o interesse venceu tudo; a escrava intermediaria augmentou o preço da complacencia. O que se passou entre nós não o poderei repetir agora; curto era o prazo concedido, mas a lucta foi renhida e longa. Busquei persuadil-a com reflexões e súpplicas; ella resistiu com indignação e lagrymas. Sua nobre alma repudiava a complicidade e o lucro de uma usurpação. Eu não via usurpação, por que a meus olhos nem os interesses da familia do conselheiro, nem as noções da simples moral prevaleciam: eu via minha filha e seu futuro: nada mais. Talvez os culpados desse meu proceder fossem somente Angela e seu bemfeitor. Elles me acostumaram a amal-a de longe, a não disputar a outrem o beneficio que ella recebia. Emfim, meu coração, egoista e ulcerado, entendia que o reconhecimento daquella pobre creança era o simples retorno das caricias de que eu havia sido defraudado; taes foram os motivos da minha consciencia. Helena resistiu até á ultima; cedeu somente á necessidade da obediencia, á imagem de sua mãe que eu invoquei, como um supremo esfôrço, á fiança que lhe dei de que a acompanharia sempre, de que iria viver perto della, onde quer que o destino a levasse; cedeu exhausta, sem convicção nem fervor. Se nesse acto decisivo de Helena ha culpa, é toda minha, por que eu fui o o autor unico; ella não passou de simples instrumento, instrumento rebelde e passivo. Seu êrro foi não ter a prudencia necessaria para não transpor o abysmo que nos separava. Eu devia contar com na resoluções subitas e promptas dessa menina; ha alli uma costella de sua mãe. Mandando-lhe dizer com as indicações precisas, onde morava, estava longe de esperar que ella viesse ver-me. A principio fiquei atterrado com as possiveis consequencias; mas se o homem se habitua ao mal e á dor, por que se não hade acostumar ao prazer e ao bem? Helena veiu mais vezes; o gôsto de a ver fez olvidar o perigo, e eu bebi, em horas escassas e furtivas, a unica felicidade que mo restava na terra, a de ser pae e a de me sentir amado por minha filha.
[CAPITULO XXVII]
Tinha acabado; grossas lagrymas, retidas a custo, emfim lhe rebentaram dos olhos e rolaram pelo rosto abaixo do narrador. A commoção não ficou só nelle; seus dous ouvintes a sentiram tambem. Acabára; e o peor que podia acontecer era isso mesmo. Uma vez finda a narração, ficaram os dous calados e perplexos, sem que ousassem contradizel-o. Depois de curta pausa, Salvador rematou assim:
—De tudo o que lhes disse não tenho outras provas, além destas cartas, que seriam bastantes, o de minhas lagrymas, que hão de ser eternas. Mas ainda quando haja outras, creio que não serão precisas. Na situação em que estamos só ha duas soluções possiveis; ou nada se altera do que o conselheiro estatuiu, e somente eu carregarei as consequencias da sorte, desaparecendo; ou a familia regeita Helena, e eu a levarei commigo. Dir-se-ha que a lei a protege a todo trance? Pois ella assignará todas as desistencias necessarias.
Estacio cortou-lhe a palavra dizendo que opportunamente lhe dariam sua resolução. Sahiram elle e Melchior logo depois; não trocaram uma só palavra; cada um delles ia absorto. Comtudo, o padre observava de quando em quando o sobrinho de D. Ursula, buscando adivinhar-lhe os pensamentos.
Chegando á porta da chacara, o padre perguntou ao moço:
—Que pretende fazer?
—Não sei ainda.
—Sei eu o que deve fazer: nada.