Salvador sorria amargamente.

—Supponha,—disse elle,—que eu havia illudido a confiança do conselheiro, e que elle acreditava ser pae de Helena.

—Era isso?

—Não era. Na posição em que nos achamos já não ha logar para meias palavras. Fôrça é referir tudo. Dez minutos apenas.

Os tres sentaram-se. Melchior olhava para o dono da casa com a persistencia e a curiosidade naturaes da occasião. Salvador esteve alguns instantes calado; emfim voltou-se para o capellão.

—Estimo, disse elle, que o Sr. padre viesse; sua caridade temperará a legítima indignação deste mancebo; e eu farei as declarações indispensaveis na presença das duas pessoas a quem mais amo, abaixo de Helena.

—Queira falar, disse seccamente Estacio.

[CAPITULO XXV]

—A mãe de Helena, disse Salvador, cuja belleza foi a causa, a um tempo, da sua ma e boa fortuna, era filha de um pobre lavrador do Rio Grande do Sul, onde tambem nasci. Apaixonamo-nos um pelo outro. Meu pae oppoz-se ao casamento; tinha alguns bens, mandara-me estudar, queria ver-me em posição brilhante. Angela podia ser obstaculo á minha carreira, dizia elle. Oppoz-se, e eu resisti; raptei-a; fomos viver na campanha oriental, d'onde passamos a Montevideo, e mais tarde ao Rio de Janeiro. Tinha vinte annos quando deixei a casa paterna; possuia alguns estudos poucos, meio duzia de patacões, muito amor e muita esperança. Era de sobra para a minha edade, mas insuficiente para o meu futuro. A lua de mel foi desde logo uma noite de privações e trabalhos. Minha vida começou a ser um mosaico de profissões; aqui onde me veem, fui mascate, agente do foro, guarda-livros, lavrador, operario, estalajadeiro, escrevente de cartorio; algumas semanas vivi de tirar cópias de peças e papeis para theatro. Trabalhava com energia, mas a fortuna não correspondia á constancia, e o melhor dos annos gastei-o em luta aspera e desegual. Uma compensação havia, a mais doce de todas: era o amor e o contentamento de Angela, a egualdade de animo com que ella encarava todas as vicissitudes. Pouco tempo depois da nossa fuga havia outra compensação mais: era Helena. Essa menina nasceu em um dos momentos mais tristes da minha vida. Os primeiros caldos da mãe foram obtidos por favor de uma mulher da visinhança. Mas nasceu, em boa hora, e foi um laço mais que nos prendeu um ao outro. A presença de um ente novo, sangue do meu sangue, fez-me redobrar de energia. Trabalhava com alma, luctava resoluto contra todas as fôrças adversas, certo de encontrar á noite a solicitude da mãe e as ingenuas caricias da filha. Os senhores não são paes; não podem avaliar a fôrça que possue o sorriso de uma filha para dissolver todas as tristezas accumuladas na fronte de um homem. Muita vez, quando o trabalho me tomava parte da noite, e eu, apezar de robusto, me sentia cançado, erguia-me, ia ao berço de Helena, contemplava-a um instante e parecia cobrar fôrças novas, Se o proprio berço era obra de minhas mãos! Fabriquei-o de alguns sarrafos de pinho velho; obra grosseira e sublime: servia a adormecer metade da minha felicidade na terra.

Salvador interrompeu-se commovido.