—Da verdade? interrompeu melancholicamemte Estacio. Quem sabe se é verdade o que lemos nesse papel?

—É, deve ser. Faltam-nos, é certo, os fundamentos da asseveração; mas eu incumbo-me de ir buscal-os.

—Iremos ambos.

D. Ursula quiz dissuadir o sobrinho de ir á casa do homem, causa dos desastres da familia; não tanto por que lhe parecia que entre Estacio e elle nenhuma relação convinha estabelecer, mas sobretudo por que ella precisava de alguem que a acompanhasse em tão graves circumstâncias. Melchior inclinou-se ao alvitre de D. Ursula.

—Irei eu só, disse elle; depois conduzil-o-hei até ca, se fôr preciso.

—Não posso esperar, insistiu Estacio; preciso falar a esse homem, ouvil-o, ler-lhe a verdade ou o embuste nas linhas do rosto. Talvez o decoro da familia exigisse outra cousa; mas, padre-mestre, meu coração goteja sangue.

Era impossivel dissuadil-o; Melchior tratou somente de o moderar. De resto, a crise era violenta; cumpria resolvel-a sem demora nem hesitação. O padre animou D. Ursula, e sahiu acompanhado de Estacio, cujo coração, convalecido do primeiro abalo, deixava as regiões da dúvida para entrar na atmosphera da verdade,—pelo menos da esperança. Quaesquer que fossem as consequencias da nova revellação, vinha ésta como um balsamo, apos tão dolorosas commoções; era um rasgão azul no ceu tempestuoso daquelles dias. Ia elle pensando assim,—ou antes sentindo,—por que o pensamento não ousava regel-o, desde que a vida inteira do moço se lhe concentrára no coração.

Chegando em frente da casa, Estacio desviou os olhos; custava-lhe encaral-a, mas venceu-se. Houve demora em abrir a porta; abriu-se ésta emfim, e a figura do dono da casa appareceu aos dous. Vendo-os, empallideceu um pouco, mas um sorriso procurou disfarçar a impressão. Estacio foi direito ao fim.

—Supponho que se lembra de mim? disse elle.

—Perfeitamente.