—Oh! ella confessou tudo! interrompeu Estacio. Vi-lhe a expressão da culpa nos olhos. Mas, emfim, estou prompto para tudo, continuou elle erguendo-se. Não foi o senhor um dos melhores amigos de meu pae? Não o é ainda nosso? Ajude-nos, aconselhe-nos; faremos o que lhe parecer melhor. Na singular situação em que nos achamos nenhum de nós temos o espirito bastante senhor de si para colhêr os elementos da verdade, apural-a e resolver. Esse papel é seu.
Vieram trazer a Estacio uma carta. Era do Dr. Camargo, annunciando-lhe que a madrinha do Eugenia fallecêra, e que elle no prazo de alguns dias estaria na Corte. Era o peor momento para semelhante vinda; Estacio não pôde reprimir um gesto de desgôsto. O padre, dizendo-lhe o mancebo de que tratava a carta, observou que nenhum inconveniente podia haver no regresso do Camargo, uma vez que, sem demora, ficasse liquidado o assumpto que os affligia.
—D. Ursula,—continuou elle,—deixe-nos agora sos alguns instantes; va tranquilla, confie em Deus, e não faça suspeitar a ninguem o que se passa nesta casa.
D. Ursula obedeceu. Logo que ella sahiu. Melchior fechou a porta. Estacio sentou-se de novo, disposto a ouvir o capellão. Este deu alguns passos entre a porta e uma das janellas. Ia anoitecendo; Estacio accendeu um candelabro. Melchior sentou-se ao pe delle, sem lhe falar nem voltar-lhe sequer os olhos. Meditava ou luctava comsigo mesmo; a fronte pesada e merencoria traduzia a agitação interior. Ja não era a inalteravel placidez, reflexo de uma consciencia religiosa e pura. Se a consciencia era a mesma, não o era o coração, a braços com uma crise nova. Apos dez minutos de profundo silêncio entre ambos, o padre falou.
[CAPITULO XXIII]
—És forte? perguntou o padre.
—Sou.
—Cres em Deus?
Estacio estremeceu e olhou para o ancião, sem responder. Melchior insistiu:
—Cres?