—Passeio algumas vezes por estes lados.
—Nem sempre estou em casa; mas ainda estando, conservo fechadas as cousas. Quando quizer descançar, bata; a casa é pobre, mas será amiga.
Estacio affastou-se rapidamente. Eram dez horas, e o sol aquecia; elle não deu pelo sol nem pelo tempo. Semelhante ao transviado florentino, achava-se no meio de uma seiva escura, a egual distância da estrada recta,—diritta via—e da fatal porta, onde temia ser despojado de todas as esperanças. Nada sabia; nada conjecturava; eram tudo novas dúvidas e oscillações. O homem com quem acabava de conversar parecia-lhe sincero; sua pobreza era authêntica; sensivel a nota de melancholia que por vezes lhe afrouxava a palavra. Mas onde cessava alli a realidade e começava a apparencia? Vinha de tratar com um infeliz ou um hypocrita? Estacio rememorou todos os incidentes da manhã, e todas as palavras do desconhecido; eram outros tantos pontos de interrogação suspeitos e irrespondiveis. Seu espirito repellia com horror a ideia do mal; mas custava-lhe a acceitar a ideia do bem; e a peor das angústias,—a dúvida,—continha-o todo e agitava-o, em suas mãos felinas. O sol e a agitação alastravam-lhe a testa de perolas de suor; ao offego da marcha apressada juntava-se o da violenta commoção. Estacio não via os objectos que ia costeando, nem as pessoas que lhe passavam ao lado; ia cego e surdo, até que o choque da realidade o despertasse.
Chegou enfim a casa. Ao portão estava um escravo, a quem deu a espingarda. Sua demora causára alguma inquietação á familia; logo que as duas senhoras souberam de seu regresso correram a recebel-o, ficando D. Ursula a uma janella, e descendo Helena até meio caminho. A apparição subita da moça, a alegria e o amor, que pareciam impelli-la, como duas azas sanctas, a perfeita ingenuidade de seu gesto, tudo produziu nelle a necessaria reacção,—reacção de um instante,—mas salutar, porque a crise era demasiado violenta. Estacio apertou as mãos da moça com a energia do náufrago. Um fluido subtil percorreu as fibras de Helena; e aquelle rapido instante teve toda a doçura de uma reconciliação.
Estacio contava recolher-se ao quarto para pôr em ordem suas ideias, comparal-as, extrahir uma conjectura pelo menos, e verifical-a ou desmentil-a. Mas nem a tia nem a irmã haviam almoçado, á espera delle; e forçoso lhe foi acompanhal-as na satisfação de uma necessidade que não sentia. Durante o almôço, Estacio procurou observar Helena; trabalho ocioso, porque o rosto da moça, se alguma cousa trahia nessa occasião, eram as alegrias ineffaveis da familia. Ella propria servia por suas mãos a Estacio e D. Ursula; inexcedivel na attenção com que sabia repartir-se entre os convivas não o era menos no carinho e na graça. Nos olhos parecia estampada a ignorancia do mal, e o sorriso em o das almas candidas. Poder-se-hia attribuir áquella creatura de dezesete annos corrupção e hypocrisia? Estacio envergonhou-se de tal ideia; sua alma sentiu as vertigens do remorso.
Mas o almoço acabou, dispersou-se a companhia, o mancebo recolheu-se ao gabinete, e, desfeita a visão, voltou a suspeita. Estacio buscou dominar a situação. Elle não ia ao ponto de suppor em Helena a completa perversão dos sentimentos; o limite do mal, que se lhe podia attribuir, era o de uma culposa leviandade. Se em vez de um acto leviano, fôsse aquillo um simples estratagema de caridade, Helena não mereceria menos uma advertencia, mas a pureza da intenção salvava tudo, e a paz da familia, não menos que o seu decoro, se restabeleceria inteira. Estacio examinou um por um todos os indicios de culpabilidade e de innocencia; buscou sinceramente os elementos de prova; não esqueceu um só argumento de inducção. Nesse trabalho despendeu longas horas, sem resultado apreciavel, pela razão de que, se a sentença era difficil de formular, o juiz era incompetente para decidir; entre a dignidade e a affeição, seu espirito balouçava incerto.
Quasi á hora do jantar, Estacio, que não sahira uma só vez do gabinete, chegou a uma das janellas, e viu atravessar a chacara a mais humilde figura daquelle enigma, humilde e importante ao mesmo tempo: o pagem. O pagem appareceu-lhe como uma ideia nova; até aquelle instante não cogitára nelle uma só vez. Era o confidente e o complice. Ao vel-o recordou-se que Helena lhe pedira uma vez a liberdade daquelle escravo. A ameaça rugiu-lhe no coração; mas a colera cedeu á angústia, e elle sentiu na face alguma cousa semelhante a uma lagryma.
Nesse momento duas mãos lhe taparam os olhos.
[CAPITULO XXII]
Não era preciso grande esfôrço para adivinhar a dona das mãos. Estacio, com as suas, affastou as mãos de Helena, segurando-lhe os pulsos de modo que lhe arrancou um leve gemido. Voltando-se, deu com os olhos na irmã, que lhe disse em tom de gracioso reproche: