Estacio sentiu uma nuvem cobrir-lhe os olhos; ao mesmo tempo apertava o primeiro objecto que achou debaixo das mãos; era a cêrca de espinhos. A dor fel-o voltar a si; tinha a mão ensanguentada. Ao longe cavalgavam Helena e o pagem. Logo que os viu desaparecer, Estacio saltou de novo á estrada. Sem resolução nem plano, caminhou em direcção á casa d'onde vira sahir a irmã. Era a mesma da bandeirinha azul, que Helena comprimentá-la de longe, alguns mezes antes, e não esquecera de reproduzir na paisagem que dera ao irmão, no dia dos annos delle. Estas circumstâncias, antes indifferentes, appareciam-lhe agora como outros tantos artigos de um libello.

O prédio parecia ainda mais velho do que a primeira vez que o vira; a caliça das paredes e das columnas ia cahindo, e o esqueleto de tijolo estava a nu em mais de um logar. Alguma herva mofina brotava a custo juncto ás paredes, cobrindo com suas folhas descoloridas o chão desegual e humido. Por baixo de uma das janellas havia um banco de pau, gretado pelo tempo, com as bordas roliças do longo uso. Tudo alli respirava penuria e senilidade.

—Não, dizia Estacio consigo, não é este o asylo de um Romeo de contrabando. Mora aqui alguma familia pobre, que a caridade engenhosa de Helena vem afagar de longe em longe.

A solução do enigma pareceu-lhe tão natural, que o moço resolveu parar a meio da aventura, e chegou a dar alguns passos para traz. Mas a suspeita é a tenia do espirito; não perece em quanto lhe resta a cabeça. Estacio sentiu o desejo imperioso de indagar o que aquillo era, e voltou sôbre seus passos. Para entrar alli era necessario um motivo ou ura pretexto. Procurou algum; a aventura dera-lhe o melhor de todos. Olhou para a mão ferida e ensanguentada, e foi bater á porta.

[CAPITULO XXI]

Poucos instantes esperou Estacio. Veiu um homem abrir-lhe a porta; era o mesmo que elle vira alli uma vez. Entre ambos houve meio minuto de silêncio, durante o qual nem Estacio se lembrou de dizer o que queria, nem o desconhecido de lhe perguntar quem era. Olhavam um para o outro.

—Que desejava? disse enfim o dono da casa.

—Um favor, respondeu Estacio, mostrando-lhe a mão ferida. Ia a cahir ha pouco; procurando amparar-me, n'uma cêrca de espinhos, feri-me, como ve. Podia dar-me um pouco d'agua para lavar este sangue, e...

—Pois não, interrompeu o outro. Queira sentar-se ahi no banco,—ou, se prefere, entrar... É melhor entrar, concluiu abrindo-lhe caminho.

Em qualquer outra occasião, Estacio teria recusado o convite, porque o expectaculo da miseria repugnava aos olhos saturados de opulencia. Agora, ardia por haver a chave do enigma. Entrou. O desconhecido abriu uma das janellas para dar mais alguma luz, offereceu ao hóspede a melhor cadeira e foi por um instante ao interior.