—Não basta isso, tornou a moça; Mendonça não voltará ca depois do que se passou. Peço-lhe a remessa deste bilhete.

Estacio abriu o bilhete; continha éstas poucas palavras: «Venha hoje a Andarahy; é o meu coração que o pede e a nossa felicidade que o exige.» Cinco minutos gastou o moço a ler as duas linhas; leu o que estava escripto e o que não estava. Helena desarmava os escrupulos de Mendonça, tirando á futura união qualquer suspeita de interesse. Leu e fechou lentamente o papel.

—Approva? perguntou a moça.

—Assim, pois, disse o moço tristemente, a tua felicidade exige que esse homem venha ca, que te cases com elle, que nos fujas? Não te basta a familia, a affeição de nossa tia, a minha propria affeição? Estes mezes de doce intimidade vão ser esquecidos em um só instante, sacrificados aos pes do primeiro homem que te apraz escolher e seguir? No dia em que penetraste nesta casa, entrou contigo um raio de luz nova, alguma cousa que nos faltava e que tu trouxeste contigo; nossa familia completou-se; nossos corações receberam um sentimento ultimo. Pensavamos que isto seria duradouro, e era simplesmente fugaz. Oh! Helena, melhor fôra não ter vindo!

Helena quiz responder; mas a voz travou-se-lhe na garganta, e a palavra retrocedeu ao coração. Apontou para o papel como pedindo-lhe ainda uma vez que o enviasse e saiu.

De tarde, appareceu Melchior; ia tranquillo e e resoluto a dar um golpe decisivo. Estacio rendeu-se antes que elle falasse.

—Padre-mestre, disse o moço logo que o viu; a reflexão venceu-me; faça-se a vontade de todos.

—Fala de coração?

—De coração.

—Pois bem, seja completo; tomou o padre. Sou ministro de uma religião que condemna o orgulho. Não ha dezar em curar as feridas de um amigo; va ter com o seu amigo; traga-o a esta casa como irmão.