—Meu sogro dizia que delle sairam os grandes artigos da Aurora. A falar verdade, eu nunca li taes artigos, mas meu sogro era homem de verdade. Conhecia a vida de Evaristo, por ouvil-a a outros, e fazia-lhe louvores que não acabavam mais...
Natividade buscou desviar a conversação para o baile da vespera. Tinham já falado delle, mas não achou outro derivativo. Entretanto, o tinteiro ainda ficou algum tempo. Não era só uma das lembranças de D. Perpetua, reliquia de familia, era tambem uma de suas ideias. Prometteu mostral-o ao conselheiro. Elle prometteu vel-o com muito gosto. Confessou que tinha veneração aos objectos de uso dos grandes homens. Emfim, o jantar acabou, e elles passaram ao salão. Ayres, falando da enseada:
—Aqui está uma obra, que é mais velha que o tinteiro do Evaristo e a taboleta do Custodio, e, não obstante, parece mais moça, não é verdade, D. Perpetua? A noite é clara e quente; podia ser escura e fria, e o effeito seria o mesmo. A enseada não differe de si. Talvez os homens venham algum dia atulhal-a de terra e pedras para levantar casas em cima, um bairro novo, com um grande circo destinado a corrida de cavallos. Tudo é possível debaixo do sol e da lua. A nossa felicidade, barão, é que morreremos antes.
—Nao fale em morte, conselheiro.
—A morte é uma hypothese, redarguiu Ayres, talvez uma lenda. ninguem morre de uma boa digestão, e os seus charutos são deliciosos.
—Estes são novos. Perecem-lhe bons?
—Deliciosos.
Santos estimou ouvir este louvor; achava-lhe uma intenção directa á sua pessoa, aos seus meritos, ao seu nome, á posição que tinha na sociedade, á casa, á chacara, ao Banco, aos colletes. É talvez muito; seria um modo emphatico de explicar a força da ligação delle aos charutos. Valiam pela taboleta e pelo tinteiro, com a differença que estes significavam só affeicção e veneração, e aquelles, valendo pelo sabor e pelo preço, tinham a superioridade do milagre, pela reproducção de todos os dias.
Taes eram as suspeitas que vagavam no cerebro de Ayres, emquanto elle olhava mansamente para o amphytrião. Ayres não podia negar a si mesmo a aversão que este lhe inspirava. Não lhe queria mal, de certo; podia até querer-lhe bem, se houvesse um muro entre ambos. Era a pessoa, eram as sensações, os dizeres, os gestos, o riso, a alma toda que lhe fazia mal.