Assim se foi o programma da vida nova. Não é que elle já a não entendesse nem amasse, ou que a não praticasse ainda alguma vez, a espaços, como se faz uso de um remedio que obriga a ficar na cama ou na alcova; mas, sarava depressa e tornava ao ar livre. Queria ver a outra gente, ouvil-a, cheiral-a, gostal-a, apalpal-a, applicar todos os sentidos a um mundo que podia matar o tempo, o immortal tempo.
[CAPITULO XXXIV]
Inexplicavel
Assim o deixámos, ha apenas dous capitulos, a um canto da sala da gente Santos, em conversação com as senhoras. Has de lembrar-te que Flora não despegava os olhos delle, anciosa de saber porque é que a achava inexplicavel. A palavra rasgava-lhe o cerebro, ferindo sem penetrar. Inexplicavel que era? Que se não explica, sabia; mas que se não explica porquê?
Quiz perguntal-o ao conselheiro, mas não achou occasião, e elle saiu cedo. A primeira vez, porém, que Ayres foi a S. Clemente, Flora pediu-lhe familiarmente o obsequio de uma definição mais desenvolvida. Ayres sorriu e pegou na mão da mocinha, que estava de pé. Foi só o tempo de inventar esta resposta:
—Inexplicavel é o nome que podemos dar aos artistas que pintam sem acabar de pintar. Botam tinta, mais tinta, outra tinta, muita tinta, pouca tinta, nova tinta, e nunca lhes parece que a arvore é arvore, nem a choupana choupana. Se se trata então de gente, adeus. Por mais que os olhos da figura falem, sempre esses pintores cuidam que elles não dizem nada. E retocam com tanta paciencia, que alguns morrem entre dous olhos, outros matam-se de desespero.
Flora achou a explicação obscura; e tu, amiga minha leitora, se acaso és mais velha e mais fina que ella, póde ser que a não aches mais clara. Elle é que não accrescentou nada, para não ficar incluido entre os artistas daquella especie. Bateu paternalmente na palma da mão de Flora, e perguntou pelos estudos. Os estudos iam bem; como é que não iriam bem os estudos? E sentando-se ao pé delle, a mocinha confessou que tinha ideia justamente de aprender desenho e pintura, mas se havia de pôr tinta de mais ou de menos, e acabar não pintando nada, melhor seria ficar só na musica. A musica ia bem com ella, o francez tambem, e o inglez.
—Pois só a musica, o inglez e o francez, concordou Ayres.
—Mas o senhor promette que não me achará inexplicavel? pergunta ella com doçura.