—Nasci no dia em que Pedro I caiu do throno.
Natividade reprehendeu a Paulo a sua resposta subversiva. Paulo explicou-se, Pedro contestou a explicação e deu outra, e a sala viraria club, se a mãe não os accommodasse por esta maneira:
—Isto hão de ser grupos de collegio; vocês não estão em edade de falar em politica. Quando tiverem barbas.
As barbas não queriam vir, por mais que elles chamassem o buço com os dedos, mas as opiniões politicas e outras vinham e cresciam. Não eram propriamente opiniões, não tinham raizes grandes nem pequenas. Eram (mal comparando) gravatas de côr particular, que elles atavam ao pescoço, á espera que a côr cançasse e viesse outra. Naturalmente cada um tinha a sua. Tambem se póde crêr que a de cada um era, mais ou menos, adequada á pessoa. Como recebiam as mesmas approvações e distincções nos exames, faltava-lhes materia a invejas; e, se a ambição os dividisse algum dia, não era por ora aguia nem condor, ou sequer filhote; quando muito, um ovo. No collegio de Pedro II todos lhes queriam bem.
As barbas é que não queriam vir. Que é que se lhes ha de fazer quando as barbas não querem vir? Esperar que venham por seu pé, que appareçam, que cresçam, que embranqueçam, como é seu costume dellas, salvo as que não embranquecem nunca, ou só em parte e temporariamente. Tudo isto é sabido e banal, mas dá ensejo a dizer de duas barbas do ultimo genero, celebres naquelle tempo, e ora totalmente esquecidas. Não tendo outro logar em que fale dellas, aproveito este capitulo, e o leitor que volte a pagina, se prefere ir atraz da historia. Eu ficarei durante algumas linhas, recordando as duas barbas mortas, sem as entender agora, como não as entendemos então, as mais inexplicaveis barbas do mundo.
A primeira daquellas barbas era de um amigo de Pedro, um capucho, um italiano, frei ***. Podia escrever-lhe o nome,—ninguem mais o conheceria,—mas prefiro esse signal trino, numero de mysterio, expresso por estrellas, que são os olhos do céu. Trata-se de um frade. Pedro não lhe conheceu a barba preta, mas já grisalha, longa e basta, adornando uma cabeça mascula e formosa. A bôca era risonha, os olhos rutilos. Ria por ella e por elles, tão docemente que mettia a gente no coração. Tinha o peito largo, as espaduas fortes. O pé nú, atado á sandalia, mostrava aguentar um corpo de Hercules. Tudo isso meigo e espiritual, como uma pagina evangelica. A fé era viva, a affeição segura, a paciencia infinita.
Frei *** despediu-se um dia de Pedro. Ia ao interior, Minas, Rio Janeiro, S. Paulo,—creio que ao Paraná tambem,—viagem espiritual, como a de outros confrades, e lá ficou por um semestre ou mais. Quando voltou trouxe-nos a todos grande alegria e maior espanto. A barba estava negra, não sei se tanto ou mais que d'antes, mas negrissima e brilhantissima. Não explicou a mudança, nem ninguem lhe perguntou por ella; podia ser milagre ou capricho da natureza; tambem podia ser correcção de homem, posto que o ultimo caso fosse mais difficil de crêr que o primeiro. Durou nove mezes esta côr; feita outra viagem por trinta dias, a barba appareceu de prata ou de neve, como vos parecer mais branca.
Quanto á segunda de taes barbas, foi ainda mais espantosa. Não era de frade, mas de maltrapilho, um sujeito que vivia de dividas, e na mocidade corrigira um velho rifão da nossa lingua por esta maneira: «Paga o que deves, vê o que te não fica.»
Chegou aos cincoenta annos sem dinheiro, sem emprego, sem amigos. A roupa teria a mesma edade, os sapatos não menor que ella. A barba é que não chegou aos cincoenta; elle pintava-a de negro e mal, provavelmente por não ser a tinta de primeira qualidade e não possuir espelho. Andava só, descia ou subia muita vez a mesma rua. Um dia dobrou a esquina da Vida e caiu na praça da Morte, com as barbas enxovalhadas, por não haver quem lh'as pintasse na Santa Casa.
Or, benè, para falar como o meu capucho, porque é que este e o maltrapilho voltaram do grisalho ao negro? A leitora que adivinhe, se póde: dou-lhe vinte capitulos para alcançal-o. Talvez eu, por essas alturas, lobrigue alguma explicação, mas por ora não sei nem aventuro nada. Vá que malignos attribuam a frei *** alguma paixão profana; ainda assim não se comprehende que elle se descobrisse por aquelle modo. Quanto ao maltrapilho, a que damas queria elle agradar, a ponto de trocar alguma vez o pão pela tinta? Que um e outro cedessem ao desejo de prender a mocidade fugitiva, póde ser. O frade, lido na Escriptura, sabendo que Israel chorou pelas cebolas do Egypto, teria tambem chorado, e as suas lagrimas cairam negras. Póde ser, repito. Este desejo de capturar o tempo é uma necessidade da alma e dos queixos; mas ao tempo dá Deus habeas-corpus.