—Quando eu sai de casa, não sabia, mas agora é provavel.

—Pois vá tranquillisal-a; naturalmente está afflicta.

Santos receiava os fuzilamentos; por exemplo, se fuzilassem o imperador, e com elle as pessoas de sociedade? Recordou que o Terror... Ayres tirou-lhe o Terror da cabeça. As occasiões fazem as revoluções, disse elle, sem intenção de rimar, mas gostou que rimasse, para dar fórma fixa á ideia. Depois lembrou a indole branda do povo. O povo mudaria de governo, sem tocar nas pessoas. Haveria lances de generosidade. Para provar o que dizia referiu um caso que lhe contara um velho amigo, o marechal Beaurepaire Rohan. Era no tempo da Regencia. O imperador fôra ao theatro de S. Pedro de Alcantara. No fim do espectaculo, o amigo, então moço, ouviu grande rumor do lado da egreja de S. Francisco, e correu a saber o que era. Falou a um homem, que bradava indignado, e soube delle que o cocheiro do imperador não tirara o chapeo no momento em que este chegára á porta para entrar no coche; o homem accrescentou: «Eu sou ré...» Naquelle tempo os republicanos por brevidade eram assim chamados. «Eu sou , mas não consinto que faltem ao respeito a este menino!»

Nenhuma feição de Santos mostrou apreciar ou entender aquelle rasgo anonymo. Ao contrario, todo elle parecia entregue ao presente, ao momento, ao commercio fechado, aos bancos sem operações, ao receio de uma suspensão total de negocios, durante prazo indeterminado. Cruzava e descruzava as pernas. Afinal ergueu-se e suspirou.

—Então, parece-lhe...?

—Que descance.

Santos acceitou o conselho, mas vae muito do acceitar ao cumprir, e a apparencia era mui diversa do coração. O coração batia-lhe. A cabeça via esboroar-se tudo. Quiz despedir-se, mas fez duas ou trez investidas antes de pousar o pé fora do gabinete e caminhar para a escada. Instava pela certeza. Com quanto tivesse visto e ouvido a republica, podia ser... Em todo caso, a paz é que era necessaria, e haveria paz? Ayres inclinava-se a crêr que sim, e novamente o convidou a descançar.

—Até logo, concluiu.

—Porque não vae lá jantar comnosco?

—Tenho de jantar com um amigo, no Hotel dos Estrangeiros. Depois, talvez, ou amanhã. Vá, vá tranquillisar a baroneza, e os rapazes. Os rapazes estarão em paz? Esses brigam, com certeza; vá pol-os em ordem.