Tudo se explicou à noite, em casa da familia Santos. O ex-presidente de provincia confessou as esperanças de uma investidura nova; a esposa affirmou a eminencia do ato. Dahi a publicidade da noticia, que pouco antes D. Claudia só dizia em segredo. Já não havia segredos que calar.

Paulo soube então tudo, e Pedro, que conhecia alguns preliminares, acabou sabendo o resto. Ambos naturalmente sentiram a separação proxima. A dôr os fez amigos por instantes; é uma das vantagens dessa grande e nobre sensação. Já me não lembra quem affirmava, ao contrario, que um odio commum é o que mais liga duas pessoas. Creio que sim, mas não descreio do meu postulado, por esta razão que uma coisa não tolhe a outra, e ambas podem ser verdadeiras.

Demais, a dôr não era ainda o desespero. Havia até uma consolação para os dous gemeos; é que a moça ficaria longe de ambos. Nenhum delles teria o gozo exclusivo ao pé da porta. Não há mal que não traga um pouco de bem, e por isso é que o mal é util, muita vez indispensavel, alguma vez delicioso. Os dous quizeram falar á amiguinha, em particular, para sondal-a ácerca daquella separação, já agora certa, mas nenhum conseguiu este desejo. Vigiavam-se, isso sim. Quando lhe falavam, era sempre juntos, e de cousas familiares e ordinarias. O gesto de Flora não traduzia o estado da alma; este podia ser lepido, melancolico, ou indifferente, não vinha cá fóra. Em verdade, ella falava pouco. Os olhos tambem não diziam muito. Mais de uma vez, Pedro deu com ella fitando Paulo, e gemeu com a preferencia, mas tambem elle era preferido depois, e achava compensação; Paulo então é que rangia os dentes, figuradamente. Natividade, toda entregue á sua recepção, que era a ultima do anno, não acompanhou de perto as agitações moraes daquelle trio. Quando deu por ellas, chegou a sentil-as tambem.

Pouco a pouco, a gente se foi dispersando. Não era muita, e dominava a nota intima. Quando a maioria saiu, ficou só a porção mais intima, trez ou quatro homens a um canto da sala, falando e rindo de ditos e anecdotas. Não conversavam de politica, e aliás não faltaria materia. As moças, pela segunda ou terceira vez, trocavam as impressões do grande baile recente. Tambem falavam de musicas e theatros, das festas proximas de Petropolis, da gente que ia naquelle anno, e da que só iria em Janeiro. Natividade dividia-se com todos, até que, podendo ficar alguns instantes com Ayres, confiara-lhe o seu receio ácerca do amor dos filhos, e ao mesmo tempo o prazer que lhe trazia a esperança de uma longa separação de Flora. O conselheiro não desdizia do receio, nem da esperança.

—É uma felicidade que o Baptista seja nomeado e leve a filha daqui, disse ella.

—Certamente, mas...

—Mas quê?

—Certamente a levará, mas a senhora póde não conhecer bem aquella menina.

—Penso que é boa.

—Tambem eu penso assim. A bondade, porém, não tem nada com o resto da pessoa. Flora é, como já lhe disse ha tempos, uma inexplicavel. Agora é tarde para lhe expor os fundamentos da minha impressão; depois lhe direi. Note que gósto muito della; acho-lhe um sabor particular naquelle contraste de uma pessoa assim, tão humana e tão fóra do mundo, tão etherea e tão ambiciosa, ao mesmo tempo, de uma ambição recondita... Vá perdoando estas palavras mal embrulhadas, e até amanhã, concluiu elle, estendendo-lhe a mão. Amanhã virei explical-as.