—Tres ou quatro.

—Quatro mezes não é a eternidade, mas Cantagallo, para uma carioca da gemma, hade ser um degredo, ou quasí... Oxalá,—continuou Luiz Alves, concluindo mais depressa do que queria, ao ver que Jorge se approximava da janella,—oxalá não lhe faça esse exilio esquecer o que solemnemente lhe digo neste momento: que a senhora tem uma alma grande e nobre, e que eu a admiro!

Jorge chegára; a conversa tinha de acabar ou tomar differente rumo.

As ultimas palavras de Luiz Alves eram singularmente dispostas para deixar sulco profundo na memoria da moça. Não era uma declaração de amor, nem uma cortezania de sala cousas todas que ella ouvira muita vez, que podiam lisongea-la, e de certo a lisongeavam; era mais que um comprimento e não chegava a ser uma declaração. Commoção, não a havia na voz do advogado; firmeza, sim, e um ar de convicção profunda. Guiomar olhou para elle quasi sem dar pela presença de Jorge; mas Luiz Alves voltara-se para o recem-chegado e falava-lhe em tom jovial, bem differente daquelle que empregára pouco antes.

Se esse contraste era premeditado,—não sei se o era,—não podia vir mais de feição ao espirito de Guiomar. De quantos homens a moça tratára até alli, era o primeiro que lhe inspirava curiosidade, e tambem, naquella occasião, a primeira pessoa que só compadecia della. Veja o leitor:—curiosidade e gratidão;—veja se ha duas azas mais proprias para arrojar uma alma no seio de outra alma,—ou de um abysmo, que é ás vezes a mesma cousa.

Eu disse—compadecia—e esta só palavra, desacompanhada de outra cousa, póde fazer crer ao leitor que, durante aquelles dias em que a perdemos de vista, tornara-se Guiomar uma creatura desditosa. Nada disso; a situação era a mesma, não a mesma anteriormente á carta de Jorge, mas a mesma da noite em que ella a recebeu, situação, de certo, assaz sombria e carregada para um coração que receia ser constrangido, mas não desesperada nem angustiosa.

A baroneza, se soubera dos factos, ou se pudera ler na alma da moça, seria a primeira a dar-lhe todas as consolações. Mas não sabia. Seu desejo,—ou antes o sonho da velhice, como ella dizia n'um dos anteriores capitulos,—era deixar felizes a afilhada e o sobrinho, e entendia que o melhor meio de os deixar felizes era casal-os um com o outro. A noticia que tinha do coração da moça, a este respeito, era incompleta ou inexacta; pintavam-lhe como frieza o que era repugnancia. Mrs. Oswald dava-lhe sempre esperanças de exilo feliz e proximo, as coleras da moça não lh'as contava nunca. Da carta de Jorge não soube, nem da scena havida na alcova. O casamento continuava a apparecer-lhe com todas as probabilidades de uma esperança realizavel.

Dirá a leitora que o sobrinho não merecia tanto zelo nem tão pertinaz esperança, e terá razão; mas os olhos da baroneza não são os da leitora; ella só lhe via o lado bom,—que era realmente bom,—ainda que de uma bondade relativa; mas não via o lado mau, não via nem podia ver-lhe a frivolidade grave do espirito, nem o genero de affecto que se lhe gerava no coração.

Jorge era o seu unico parente de sangue,—filho de um irmã que vivêra infeliz e mais infelizmente morrêra, não repudiada, mas aborrecida do marido, circumstancia que lhe tornava caro aquelle moço. Mais do que a afilhada, não; nem tanto, de certo; o coração não chegaria para dividir-se egualmente em tão grandes porções; queria-lhe, porém, muito, quanto bastava para desejal-o feliz, e trabalhar por fazel-o. Accrescentemos que o destino da irmã sempre lhe estava presente ao espirito, e que ella receiava egual sorte a Guiomar; em Jorge parecia-lhe ver todos os dotes necessarios para tomal-a venturosa.

Infelizmente, Mrs. Oswald, sabedora daquelles secretos desejos e mais ou menos confidente dos sentimentos de Jorge, achara azada occasíão esta para patentear toda a gratidão de que estava possuida e a profunda amizade que a ligava á familia da baroneza. Interpoz-se para servir aos outros, e mais ainda a si propria. Viu a difficuldade, mas não desanimou; era preciso armar ao reconhecimento da baroneza. Por isso não hesitou em confiar a Guiomar o desejo da madrinha, exagerando-o, entretanto,—por que nunca a baroneza dissera que «tal casamento era a sua campanha,» e Mrs. Oswald attribuiu-lhe esta phrase mortal para todas as esperanças e sonhos da moça. Mas, se falava demasiado ao pé de uma, era muito mais sobria de palavras com a outra, e da exageração ou da attenuação da verdade resultara aquelle perenne estado de luta abafada, de receios, de indecisão e de amarguras secretas. Convém dizer, para dar o ultimo traço ao perfil, que esta Mrs. Oswald não seguia só a voz do seu interesse pessoal, mas também o impulso do proprio genio, amigo de pôr á prova a natural sagacidade, de tentar e levar a cabo uma destas operações delicadas e difficeis, de maneira que, se houvesse uma diplomacia domestica,—ou se se creassem cargos para ella, Mrs. Oswald podia contar com um lugar de embaixatriz.