Tinha a moça dezeseis annos quando passou para o collegio da tia de Estevão, onde pareceu á baroneza se lhe poderia dar mais apurada educação. Guiomar manifestára então o desejo de ser professora.

—Não ha outro recurso, disse ella á baroneza quando lhe confiou esta aspiração.

—Como assim? perguntou a madrinha.

—Não ha, repetiu Guiomar. Não duvido, nem posso negar o amor que a senhora me tem; mas a cada qual cabe uma obrigação, que se deve cumprir. A minha é... é ganhar o pão.

Estas ultimas palavras passaram-lhe pelos lábios como que á força. O rubor subiu-lhe ás faces; dissera-se que a alma cobria o rosto de vergonha.

—Guiomar! exclamou a baroneza.

—Peço-lhe uma cousa honrosa para mim, respondeu Guiomar com simplicidade.

A madrinha sorriu e approvou-a com um beijo,—assentimento de boca, a que já o coração não respondia, e que o destino devia mudar.

Pouco tempo depois padeceu a baroneza o golpe quasi mortal a que alludiu no capitulo anterior. A filha morreu de repente, e o inopinado do desastre quasi levou a mãe á sepultura.

A affeição de Guiomar não se desmentiu nessa dolorosa situação. Ninguém mostrou sentir mais do que ella a morte de Henriqueta, ninguém consolou tão dedicadamente a infeliz que lhe sobrevivia. Eram ainda verdes os seus annos; todavia revellou ella a posse de uma alma egualmente terna e energica, affectuosa e resoluta. Guiomar foi durante alguns dias a verdadeira dona da casa; a catastrophe abatera a propria Mrs. Oswald.