A baroneza calou-se; ouvira passos no corredor.

Guiomar, embora tivesse ido vestir-se e aprimorar-se, com tão singellos meios o fizera, que não desdizia daquelle matinal desalinho em que o leitor a viu no capitulo anterior. O penteado era um capricho seu, expressamente inventado para realçar a um tempo a abundancia dos cabellos e a senhoril belleza da testa. As pontas bordadas de um collarinho de cambraia dobravam-se faceiramente sobre o azul do vestido de glacé, talhado e ornado com uma simplicidade artistica. Isto, e pouco mais, era toda a moldura do painel,—um dos mais bellos paineis que havia por aquelles tempos em toda a praia de Botafogo.

—Viva a minha rainha de Inglaterra! exclamou Mrs. Oswald quando a viu assomar á porta da saleta.

E Guiomar sorriu com tanta, satisfação e gôzo ao ouvir-lhe esta saudação familiar, que um observador attento hesitaria em dizer se era aquillo simples vaidade de moça, ou se alguma cousa mais.

A baroneza poz os olhos na afilhada, uns olhos amorosos e tristes, em que a moça reparou, e que a tornaram séria durante alguns rapidos segundos. Mas sorriu depois; e pegando das mãos da madrinha deu-lhe dous beijos no rosto, com tanta ternura e tão sincera, que a boa senhora sorriu de contentamento.

—Não precisa falar, disse Guiomar, já sei que me acha bonita. É o que me diz todos os dias, com risco de me perder, porque se eu acabo vaidosa, adeus, minhas encommendas, ninguem mais poderá commigo.

Guiomar disse isto com tanta graça e singeleza, que a madrinha não pôde deixar de rir, e a melancolia acabou de todo. A sineta do almoço chamou-as a outros cuidados, e a nós tambem, amigo leitor. Em quanto as tres almoçam, relanceemos os olhos ao passado, e vejamos quem era esta Guiomar, tão gentil, tão buscada e tão singular, como dizia Mrs. Oswald.


[V]

Meninice.