—Estava talvez a dormir, ou entretida com o seu Walter Scott...

—Milton, emendou gravemente a ingleza; esta manhã foi dedicada a Milton. Que immenso poeta, D. Guiomar!

—Tamanho como este calor, observou Guiomar sorrindo. Apertemos o passo e lá dentro a ouviremos com melhor disposição.

Foram as tres andando, subiram a escada e entraram na sala de jantar, que era vasta, com seis janellas para a chacara. Dalli seguiram para uma saleta, onde a baroneza sentou-se na sua poltrona, a esperar a hora do almoço. Guiomar saiu para ir cuidar da toilette; e a baroneza que desde alguns minutos estivera cabisbaixa e pensativa, olhou fixamente para Mrs. Oswald, sem dizer palavra.

Era ella uma senhora de cincoenta annos, refeita, vestida com esse alinho e esmero da velhice, que é um resto da elegancia da mocidade. Os cabellos, côr de prata fosca, emmolduravam-lhe o rosto sereno, algum tanto arrugado, não por desgostos, que os não tivera, mas pelos annos. Os olhos luziam de muita vida, e eram a parte mais juvenil do rosto.

Tendo casado cedo, coube-lhe a boa fortuna de ser egualemente feliz desde o dia do noivado até o da viuvez. A viuvez custara-lhe muito; mas já lá iam alguns annos, e da crua dor que tivera ficara-lhe agora a consolação da saudade.

—Chegue-se mais perto; preciso falar-lhe a sós, disse ella á ingleza, que se achava a alguns passos de distancia.

Mrs. Oswald foi ate a porta espreitar se viria alguém e voltou a sentar-se ao pé da baroneza. A baroneza estava outra vez pensativa, com as mãos crusadas no regaço e os olhos no chão.

Estiveram as duas alli silenciosas alguns dous ou tres minutos. A baroneza despertou emfim das reflexões, e voltou-se para a ingleza:

—Mrs. Oswald, disse ella, parece estar escripto que não serei completamente feliz. Nenhum sonho me falhou nunca; este, porém, não passará de sonho, e era o mais bello de minha velhice.