—Infame! rugiu Sauvain, agarrando Pedro pela gola da velha sobre-casaca, e sacudindo-o rudemente.
O aventureiro deixou-se sacudir. Meteu sossegadamente as mãos nas algibeiras das calças despedaçadas,{138} e poderia mesmo jurar-se que um vago sorriso de infernal satisfação lhe assomara aos lábios.
—Vamos, mancebo!... disse ele. Não hesite: bata-me, estropie-me, mate-me. Sou um tratante, um canalha, um ladrão; nem valho a corda com que me enforcarem!...
André largou-o; repugnava-lhe maltratar um velho.
Cego pelas lágrimas, sufocado pela indignação, aniquilado pelo desespero, caiu prostrado numa cadeira e só pôde balbuciar estas palavras:
«Rosa!... Rosa!... minha pobre Rosa!...»
Pedro pareceu sinceramente comovido.
—Ah!... resmoneou ele, procurando em vão no crânio calvo um punhado de cabelos para arrancar; eu devera-o ter previsto!... O desgraçado contava com o seu dinheiro para desposar a pequena... e tu, grande bandido, velho celerado, devoraste tudo, deitaste-lhe abaixo a igrejinha!
E nisto, infligindo a si próprio as maiores injúrias, desenfiava um rosário de pragas.
Entretanto a dor de André atingia o seu paroxismo. Encostado à mesa, com o rosto esmagado entre os punhos contraídos, fazia esforços incríveis para recalcar no peito os gemidos e gritos de raiva... mas debalde.