Entretanto adiantava-se a noite, e pelas mil fendas do casebre filtrava-se glacial humidade. André, transido de frio, ergueu-se enfim às apalpadelas, acendeu luz, dirigiu-se a uma pequena carvoeira contígua, e aí ajuntou algumas achas, que dispôs na lareira.
Tentou fazer uma boa fogueira, mas a tarefa não era fácil.
Um montão de cinzas, extintas havia doze anos, obstruía a chaminé. O pintor quis desvia-las; porém, ao enterrar a pá, tocou num objecto duro, resistente, metálico, que não pôde logo adivinhar o que fosse. Tirou-o e limpou-o ao forro da blusa.
Era uma chave ferrugenta, de mui exígua dimensão e de forma particular. Evidentemente só podia pertencer a um pequeno cofre, ou a um indispensável de mulher.
André olhou em volta de si, mas não descobriu nenhum utensílio daquele género. Atirou com a chavinha para cima da mesa e acendeu a lenha, que começou a crepitar.
O velho recinto iluminou-se de alegre claridade. O pintor tentava reatar o fio dos seus pensamentos, mas debalde; a seu pesar, a pequena chave intrigava-o; não sei que vaga intuição lhe segredava ao ouvido que, entre aquela chave e o mistério{124} que procurava desvendar, havia talvez íntima relação...
De repente, à força de a virar e revirar nos dedos. Lembrou-se de haver brincado em criança com uma caixinha, habilmente coberta de conchas multicolores, como muitas que se vendem em certos portos de mar.
Sua mãe apreciava-a muito: fora um presente do marido, que lha comprou na feira de Granville... Conservava-a como uma relíquia, e nela guardava o que tinha de mais precioso. A caixa existiria ainda?
André começou a procurá-la, e, sempre guiado pelas suas recordações, descobriu-a sobre um resto de roupa branca, que ficara a um canto da arca de nogueira. Tomou-a nas mãos e, pelo seu pouco peso, julgou que estava vazia. Contudo meteu a chave na fechadura.
A caixa abriu-se; continha apenas um papel.