—Engana-se! vê-la-hei, falar-lhe-hei, ama-la-hei e casarei com ela; mesmo contra sua vontade!

—Tomarei as medidas necessárias para obstar a essas loucuras.

E o senhor Germinal, erguendo-se com um gesto ameaçador, saiu do atelier.

Apenas transpôs o liminar, André correu atrás dele. Arrependia-se da sua arrogância. Queria lançar-se-lhe aos pés e enternecê-lo à força de súplicas; mas, quando ia a alcançá-lo, as abas flutuantes de um enferrujado casaco abriram-se como duas asas, e o senhor Germinal, veloz como uma seta, encaixou-se em casa e trancou ruidosamente a porta. André voltou desanimado; ao desânimo seguiu-se o furor; ao furor, o desespero; depois... os projectos extremos, as resoluções insensatas, e até uns vagos desejos de lançar fogo ao edifício, precipitar-se através das ruínas fumegantes, estreitar Rosa nos braços e fugir com ela... fosse para onde fosse!...

André Sauvain mordia os dedos e andava de um para outro lado, como um tigre na jaula. Perto da noite, não podendo conter-se, trepou quatro a quatro a escada do que recusava ser seu sogro; tocou à campainha, primeiro timidamente, depois com mais força.

Nenhuma resposta.{107}

Tocou outra vez, bateu, suplicou, disse quem era, tornou a tocar, atroou o patamar com as suas imprecações. Mas ninguém apareceu, a não ser um vizinho desagradável, que resmungou vagamente as palavras: comissario de policia.

Depois disto, André desceu ao atelier, atirou consigo para cima do canapé, estorcendo-se e invocando Rosa.

Após muitas horas deste exercício incoerente, um colosso ficaria prostrado. Havia muito que era noite. O pintor adormeceu num sono febril, assaltado de sonhos extravagantes, e interrompido de dez em dez minutos. Vinte vezes acordou em sobressalto para ver se o dia não surgira ainda.

Pela madrugada julgou ouvir ao longe a voz da sua noiva, que, com queixumes angustiosos, o chamava por entre soluços. Correu à porta, e, com os cabelos eriçados e o ouvido à escuta, olhou para fora.