—Nego-o energicamente! retorquiu André, não menos furioso. Mas, embora o senhor tivesse carradas de razão, era tarde para desdizer-se. Se este{104} consorcio lhe desagradava, para que veio, há quatro meses, procurar-me ao fundo deste cacifo, como acaba de chamar-lhe?... Porque incitou um amor, que, entregue a si mesmo, talvez houvesse sido sufocado?

—Rosa assim o exigia... Rosa amava-o...

—E pensa que deixará de amar-me por lho ordenar?

—Ignoro-o, mas não casará consigo.

—Ora, senhor!... se o casamento fosse só permitido às pessoas ricas, extinguir-se-ia o sol.

—Pois que se extinga. Não casará com minha filha; é escusado pensar mais nisso.

—Não pensar mais nisso!... Imagina que um sentimento, igual ao meu, se aniquila à vontade, como a chama de uma vela! Rosa é o sangue das minhas artérias, a seiva da minha mocidade, o paraíso da minha alma, a primavera do meu coração!... Peça-me que viva sem respirar, mas não ouse pedir-me que esqueça Rosa!

—Peço-lho, e, sendo preciso, ordeno-lho!... Nunca consentirei em vê-la miserável! A imagem de sua mãe... tenho-a sempre diante dos olhos! Não casará com minha filha!

—Homem teimoso! Quem lhe disse que, mesmo no seio da abundância e do luxo, sua mulher teria vivido? Quem lhe disse que ela não encerrava no peito o gérmen de uma doença mortal? E com que{105} direito aquilata pelo seu passado o meu futuro? Por ventura os recursos de um amanuense, acorrentado a um trabalho estúpido, e cujo ínfimo salário nunca aumenta, embora trabalhe noite e dia, podem comparar-se aos de um artista, moço, corajoso, inteligente e forte?

—Não ponho em dúvida a sua coragem, nem o seu talento: mas presumo que, quando os resultados forem apreciáveis, já Rosa terá os cabelos brancos. Não possuirá minha filha, senhor Sauvain.