[XVI]
—É fora de dúvida, disse o pintor, que este aventureiro teve relações com a minha família. Mas, porque fará mistério disso? É, na verdade, um homem surpreendente! Que impaciência, que febre de agiotagem! Veja como corre!... É um furacão!
—Sim... um furacão, murmurou Germinal, passando amigavelmente o braço pelo de Sauvain, um furacão que derrubou os nossos castelos no ar! Entremos em sua casa: preciso de falar-lhe. André obedeceu, cerrando os punhos de raiva.
Adivinhava o fim da conferência, que iam ter, e, já ardendo em indignação, revestia-se de uma tríplice couraça para entrar na luta.
Pela sua parte, o senhor Germinal também não se sentia em leito de rosas. Assentou-se, tossiu, esfregou as mãos, piscou os seus olhos de peixe cozido,{102} e antes de tomar a palavra, suspirou cinco ou seis vezes, com intervalos.
Dava-lhe em cheio a luz no crânio, cor de ferrugem, e essa circunstância fez notar a André, não sem terror, que aquela caixa ossuda, estreita e deprimida, tinha bem característica a bossa da teima invencível.
O senhor Germinal começou pela narração do seu triste encontro com Onésimo Toucard; contou a vida que levara durante onze anos, as suas más tentações reprimidas, as suas esperanças, os seus receios e os seus desalentos.
Quando acabou, André disse-lhe friamente:
—Muito bem: o dinheiro foi reembolsado, a sua consciência ficou em repouso; está tudo o melhor possível. Porém devia ter a certeza de que nós, mesmo depois de casados e em posse dessa fortuna, a entregaríamos sem hesitação ao seu legítimo proprietário.
—Não tenho a menor dúvida, retrucou o senhor Germinal; sei que é um mancebo digno. Quanto melhor o conheço, mais o aprecio... Teria orgulho em chamar-lhe meu filho...