—É uma simples hipótese!... A hipótese era já uma esperança, que fizera mudar de causa a sua impaciência e agitação; tanto estremecera de júbilo, quanto estremecia agora de receio, à vista de um estranho; cessara de publicar anúncios, e cada dia, que passava, era riscado no almanaque, como um perigo de menos a evitar.
Três anos decorreram ainda, e foram terríveis! A pensão do senhor Germinal, até então suficiente para um velho e uma criança, não o era já para duas pessoas; as suas economias tinham desaparecido na educação de Rosa e nos gastos da publicidade. Mais de uma vez, deitado na sua enxerga, a braços com a febre ou com a fome, sentindo através do tabique sua filha a chorar, tivera horripilantes tentações, relativas a esse dinheiro, que dormia inútil ao alcance da sua mão. Contudo não tirou dele a mínima parcela, nem sequer trocou uma nota.
Decorridos dez anos, aquele homem probo, escrupuloso,{84} austero até ao superlativo, chegou, de concessão em concessão, a formar o seguinte raciocínio:
«Fiz tudo quanto era humanamente possível para descobrir os herdeiros de Onésimo: o meu dever está cumprido. Restituir esta soma ao estado, que não carece dela, seria um absurdo. Acaso não quereria a Providencia compensar-me dos meus sofrimentos, proporcionando-me os meios de me utilizar destes valores? Portanto, sou livre de dispor deles.»
Conspirava consigo mesmo para fazer uma surpresa a sua filha: seria uma casinha branca, no campo, um retiro florente, onde Rosa gozasse enfim dos ócios e distracções, de que até então fora privada a sua mocidade. Mas, logo que pegou nas notas com a intenção formal de se apossar delas, empalideceu e deixou-as cair no fundo do esconderijo. Parecia-lhe que ia cometer um roubo.
«Não é de urgência, pensou o velho. Rosa tem apenas quinze anos... É uma criança nobre e corajosa, que soube criar-nos recursos e trouxe um pouco de bem-estar à nossa pobre casa. A verdade é que não nos falta o pão! Esperemos mais dois anos... Doze anos é um prazo razoável...»
Todavia, é provável que o fosse adiando, de ano para ano, detido sempre pelos mesmos escrúpulos, se Rosa lhe não houvesse confessado o seu amor por André Sauvain.{85}
Aquela noticia afligiu o senhor Germinal, mas acabou com as suas hesitações. Convenceu-se de que existia uma séria paixão, de parte a parte; estudou o pintor, afeiçoou-se-lhe, e, meio desesperado, meio satisfeito, resolveu conceder-lhe a mão de Rosa, com os noventa e dois mil francos, no dia em que expirasse o décimo segundo ano do depósito.
Foi desse modo que, entre perpetuas angustias, com a consciência oprimida e o espírito torturado, o senhor Germinal dotou e chamou noivos aos dois jovens.
Vimos já como surgira nesse momento Pedro Toucard, qual outro Desmancha-prazeres.{86}