Eis porque, nessa tarde, fugindo do seu atelier, onde perigosas imagens lhe perturbavam o espírito, exclamou: «Se amo, estou perdido! O amor e o trabalho são dois inimigos mortais. Não amemos!»
Ora, prometer não amar equivale a jurar que não nos cairá uma telha sobre a cabeça. André reconheceu-o um pouco tarde: a sua imaginação corria à desfilada, e ele já não era senhor de a fazer parar! Jantou em três garfadas e com três suspiros, segundo o uso imemorial dos namorados; depois saiu e caminhou ao acaso, com o olhar desvairado e o aspecto carrancudo. Mas, por mais que fizesse, sentia sempre aquela boca rosada, os olhos negros, os cabelos louros e a canção alegre a prenderem-se-lhe ao coração com as suas garras de diamante.
Era véspera de Natal. Em toda a linha dos boulevards humildes barracas de madeira branca irradiavam o pálido clarão das suas lanternas sobre as suas vizinhas fronteiras, magníficas lojas, cintilantes de gás e de doirados. Por entre esses dois cordões de luz cruzavam-se torrentes de ociosos passeantes. Aquele ruído, aquela claridade, o perpassar da multidão buliçosa e festiva, forçaram André Sauvain a baixar à terra. Voltou a si, como um dormente{12} que desperta em sobressalto, e, poucos minutos depois de poder reconhecer o lugar em que estava, surpreendia-lhe o olhar ainda distraído, e vivamente lhe excitava a atenção, uma fisionomia na verdade singular.{13}
[III]
Defronte da vidraça de uma casa de pasto agrupava-se, como sempre, uma multidão curiosa e vítima do suplício de Tântalo.
No centro desse grupo via-se um homem de quase sessenta anos, de baixa estatura, mas grosso e exibindo um busto de atleta.
A longa barba, espessa e grisalha, caía-lhe sobre o peito, onde se bifurcava em duas pontas; tinha o nariz tuberculoso e avermelhado, ao passo que a pele macilenta, tisnada e enrugada das suas faces, estava coberta de manchas lívidas. Não obstante o termómetro marcar dez graus abaixo de zero, cobria-lhe a cabeça um chapéu pardo, cujas abas moles e cansadas já não tinham cor apreciável; uma sobre-casaca no fio, quase erma de botões, mal lhe protegia o tronco contra os rigores da temperatura,{14} e os braços mergulhavam até aos cotovelos nas algibeiras de umas velhas calças de ganga.
Estava ali; boquiaberto e imóvel. Os seus olhos, brilhando ávidos sob grossas pálpebras vermelhas e lacrimosas, pareciam querer saltar das órbitas para devorar os tesouros gastronómicos perante eles expostos: perdigotos recheados de trufas, terrinas misteriosas, salsichões enormes, lagostas escarlates sobre ramos de verde salsa, carpas do Reno, cujos lombos prateados vergavam sob pedaços de gelo... tudo o tentava, e as suas ventas dilatadas aspiravam com força as emanações culinárias que saíam pelos ventiladores.
De repente André viu-o empalidecer e vacilar; mas não tardou que o desconhecido cobrasse animo e mil impressões rápidas transpareceram sucessivamente no seu rosto extraordinário. Foram elas: a raiva concentrada, um sofrimento agudo, o cinismo descarado, e um embaraço tímido. Passou a mão curta e cabeluda sobre os seus olhos, deslumbrados, mais ainda pela atracção dos comestíveis do que pelas luzes. Depois estudou, uma a uma, com angustiosa atenção as figuras que o rodeavam inclinadas para a vidraça. Por fim franziram-se-lhe os lábios num amargo sorriso, e o seu olhar tornou-se carregado. Tirou lentamente o chapéu, e soltando um suspiro, enxugou o crânio calvo, onde brilhavam grossas bagas de suor. Foi então que descobriu André{15} Sauvain, o qual, parado a pouca distância, o observava com crescente interesse. Vendo-se espiado, o velho franziu as negras sobrancelhas, e fugitivo rubor lhe coloriu o pergaminho das faces; com um gesto indiferente e irónico, tornou a pôr o chapéu no alto da cabeça, e balanceando-se à moda dos marinheiros, disse-lhe num tom em que transparecia a contrariedade:
—Então, mancebo, que temos? Serei porventura um fenómeno? Julga-me empalhado?