Um homem, um moribundo, que ele debalde tentava salvar, desprendeu-se-lhe dos braços, e entregou-lhe uma carteira, murmurando estas palavras:
—Guarde: é um depósito... que lhe confio... Entregue-o pela sua própria mão a... Eu chamo-me...
Fez um esforço supremo para concluir, mas não pôde; caiu morto no wagon, que começava a ser invadido pelo fogo.{77}
[XIII]
No dia seguinte, regressou o senhor Germinal a Paris. Inútil é acrescentar que foi de carruagem.
Quando se reinstalou na sua habitação, a senhora Possignol recusava-se a reconhecê-lo; em vinte e quatro horas envelhecera vinte e quatro anos. O seu semblante parecia uma planície devastada por um ciclone; para o corpo fez à involuntária aquisição de um tremor nervoso; e para o espírito, a de dois cuidados graves: o depósito, que lhe fora confiado; e sua filha, que trouxera consigo, não querendo estar por mais tempo separado dela, depois de ter visto a morte tão de perto.
A pequena Rosa dormia a sono solto. Ele improvisou-lhe um leito, correu as cortinas, aferrolhou-se solidamente, e foi sentar-se imóvel ante um objecto, que exumara das profundezas do seu sobretudo.{78}
Era uma carteira assaz volumosa, denegrida pelo uso, e tendo gravado no couro, em letras outrora douradas, o nome de Onésimo Toucard.
Continha noventa e dois mil francos.
Perante aquele maço de papeis, que representavam mais de sessenta anos do seu ordenado, o digno burocrata por pouco não perdeu os sentidos; eriçaram-se-lhe os raros cabelos, ergueu-se, e arrastou um móvel, com o qual barricou a porta.