—Tanto pior! observou-lhe André.
—Pelo contrário, tanto melhor! Tenho apego aos meus defeitos; estou habituado a eles, há sessenta anos, e ser-me-ia penoso deixa-los.
André sorriu-se; e o velho, vendo isto, foi buscar uma cadeira.
—Quer que lhe conte a minha historia? perguntou ele.
—Para quê?{61}
—Ora essa!... para que me conheça bem. Embora por sorte mofina me veja reduzido a um ente miserável, velho e pobre, sou com tudo um patusco aproveitável; posso servir para alguma coisa... principalmente a quem me prestou serviços. À falta de dinheiro, tenho ideias: a felicidade de um homem depende, algumas vezes, do maltrapilho que lhe pediu esmola.
—Pelo que toca à minha felicidade, lhe tornou André, outra pessoa se encarregou dela. É negócio concluído. Porém... não lhe agradeço menos a boa intenção, meu bravo!
—Vejam lá como são os rapazes! Este julga-se completamente feliz, porque vai desposar a sua bela das tranças doiradas!
—Como o sabe?
—Que grande mistério! Qualquer caraíba o teria adivinhado, só de os ver ao lado um do outro. E os quatro retratos dela? Aposto que foram feitos de memória!... Mas, meu caro... a felicidade não consiste só numa afeição, aguda ou crónica; a felicidade, não obstante o que têm dito os trovadores, prefere tectos doirados a barrotes... assim!