André mordeu o bigode, e consultou as nuvens, como se elas estivessem encarregadas de trazer-lhe barras de oiro e se houvessem demorado no caminho.
—Trarei, respondeu enfim, o meu amor, a minha coragem, a minha perseverança e... a minha fé no futuro.
—Muito bem, disse o senhor Germinal. E tu Rosa, que levarás em dote a teu marido?
—A felicidade, respondeu ela simplesmente, mas com profunda convicção.
—Muito bem, repetiu o velho. Pois, meus filhos, possuís exactamente o mesmo capital, que eu possuía quando casei.
—E foi feliz, afirmou Rosa.
—Feliz!... redarguiu ele com amargura; feliz, como o ladrão, que se apressa a dissipar o que roubou, pensando incessantemente nas galés que o esperam!... feliz, como o condenado à morte, que afoga a razão numa orgia efémera, e que despertará no cadafalso!... Não sabe, André, quanto custa{47} ver a mulher que adoramos, uma criatura delicada a quem desejaríamos entretecer um ninho com todas as maravilhas do universo, estragando a vista num trabalho ingrato para poder comprar um miserável vestido de chita!... sorrir forçadamente para nos esconder as pálpebras avermelhadas pela vigília!... definhar-se; a fogo lento, à mingua de um pouco de supérfluo!... E tu ignoras também, minha pobre Rosa, o que é ver entrar à noite um homem desanimado, abatido, prostrado pelo excesso de um trabalho mecânico, humilhado por superiores insolentes, escarnecido por subalternos mais bem trajados do que ele, consentindo, para poder ganhar um salário irrisório, em calcar aos pés a sua inteligência e a sua dignidade!... Tu não sabes, repito, o que é sentir-se uma pessoa esmagada por esta luta com a pobreza, prever próxima a morte, e inclinar-se de noite sobre um berço, murmurando: «Que será desta criança, quando eu lhe faltar?»
Rosa e André achegaram-se um ao outro, trocando olhares altivos, que desafiavam a adversidade.
—Ignoram tudo isto, prosseguiu o senhor Germinal; porém eu, que o sei por experiência própria, jurei sobre o túmulo de minha mulher, morta de miséria, vítima de privações de toda a espécie!... que nunca daria minha filha a um homem pobre.
André levantou-se, pálido e com as feições transtornadas.{48}