Esta senhora, quando eu a conheci em 1849, mostrava ainda uns traços esmaecidos de belleza rara. Representava trinta e cinco annos, tinha quarenta e quatro, e redigia uma folha em francez, cujo titulo me esqueceu. Collaborava n'esse semanario ameno o consul de França Mr. d'Estrées, que pereceu no naufragio do vapor Porto, em 1852. Eram tres os seus filhos, lindos e louros como ella e como o pai. Gonçalves Basto havia sido um homem gentilissimo. Dava ares de inglez, e nascera em Cabeceiras de Basto, onde florece uma raça de homens celtas esculpturaes, e de mulheres fortes, raça callaica, ás quaes sobejam as exigencias musculosas da estatuaria.

N'aquelle tempo, ouvi dizer que a paz domestica do proprietario e collaborador do Nacional não era invejavel. De feito, Gonçalves Basto alimentava-se nos restaurantes, desculpando a irregularidade insalubre e estouvanada d'este viver parisiense com a faina jornalistica.

Elisa era mãi extremosa. Quando lhe morreu o terceiro genito, a criança mais angelical que ainda vi--uma menina de nove annos,--a mãi, n'um impeto de desvario, fugiu para a Foz com os outros dous filhos, e alfaiou elegantemente uma casinha contigua ao cemiterio, que então se andava construindo. Uma das primeiras lapides que alli se assentaram cobriu o cadaver d'um dos dous filhos. Este menino, se bem me recordo, era afilhado de Lamartine.

Visitei com frequencia esta senhora n'esse anno de luto e desesperação. Era solidamente instruida. Lia os livros portuguezes com rara intelligencia. Achava os romances peninsulares fastidiosos como a Côrte na aldêa de Rodrigues Lobo. Dizia que nós apenas tinhamos um céo azul com uma bonita lua, e na terra muitas flôres e ribeiros crystallinos que nos inspirassem; mas que o romancista carece de sociedade viva, com as suas boas e ruins paixões. E acrescentava que Portugal era geographicamente obrigado a ser um alfobre de lyristas.

Mostrou-me o seu album de autographos. Os mais preciosos dera-lh'os o irmão, que se carteára com parte dos seus contemporaneos illustrados. Tinha-os de alto valor historico, escriptos por Maria Antoinette, por Luiz XVI, por Chateaubriand, por M.me de Staël, pelos estadistas das grandes tradições. A sua livraria era pequena, e quasi toda ingleza. Não sabia o allemão; tencionava porém estudal-o, quando serenasse a tempestade que ainda rugia á volta da sua alma articulando-lhe os nomes dos filhos. Foi ella quem me deu o Adolpho, romance de Benjamin Constant, e me disse: «Leia-o em quanto lhe póde ser proveitoso». Li-o, e não aproveitei nada; nem ella, que o lêra tres vezes, aproveitára muito. Os livros nada ensinam na alçada do coração. A experiencia, sim; mas a lição vem tarde. Quem ensina tudo é a velhice. Ainda bem, se nos salva dos espectaculos do riso, e nos tira o pincel do bigode.

Henri de Weimar Basto, o filho primogenito, quando frequentava distinctamente a escola polytechnica e auxiliava o pai traduzindo o Times, morreu tisico aos dezoito annos de idade, nos arrabaldes de Lisboa.

Fez-se então o crepusculo da noite infinita na razão de Elisa Basto; a treva, todavia, condensou-se vagarosamente, porque a intelligencia reagiu com as suas poderosas energias á paixão que a dementava.

Principiou a estudar o idioma germanico de tão phrenetico modo que ahi mesmo denunciava o desconcerto do seu espirito. Gonçalves Basto raras vezes a visitava. Depois da morte do ultimo filho, deslaçaram-se de todo os frouxos vinculos que os ligavam. Encontravam-se n'aquelle filho os dous amores dos corações divorciados; era de ambos aquelle sêr querido e disputado á competencia de caricias. Morreu o incentivo, apagou-se a luz que ainda lhes mostrava ao longe a saudade na penumbra do passado amor: a pedra que o cobriu abafou tudo o mais!--acabaram alli com elle todas as recordações e esperanças. D'ahi em diante, cada qual habitava sua casa; ella na Foz, e elle na rua 29 de Julho.

Entretanto, Elisa pernoitava sobre os lexicons allemães, e decifrava a traducção biblica de Luthero. D'este afanoso estudo tenho á vista a prova no fragmento d'uma carta que me ella escreveu por esse tempo. Eu tinha publicado um folhetim de má prosa ácerca dos Proverbios e Cantares. Dos Proverbios extrahira eu estes periodos dos capitulos XII, XIV e XV:

A mulher diligente é a corôa de seu marido; e a que obra cousas dignas de confusão far-lhe-ha apodrecer os ossos.