Cumprida a pena, o prêso recebeu com o alvará de soltura a baixa, e folha corrida do crime de ferimento na pessoa do visconde.
Fez a sua residencia em uma hospedaria, em quanto se fretava o navio em que devia transportar-se ao Brazil. Viveu alguns dias n'uma violenta coacção á sua vontade, que era mostrar-se n'uma sege a galope, n'um camarote, nos cafés, nos passeios, e nas praças. O desconhecido padre, porém, déra-lhe como preceito a reclusão no seu quarto, e Luiz obedecia, maniatado pela dependencia do capital promettido.
O seu mais forte desejo era seguir o padre para averiguar a morada da pessoa que o protegia. Acreditemos, ainda assim, que não era a ancia de beijar as mãos ao bemfeitor, que lhe estimulava uma nobre curiosidade. Era o simples desejo d'entrar no segredo da aventura romanesca. Se não obedecia ao desejo, resistindo ao silencio do agente da mysteriosa pessoa, é por que receava perder a beneficencia com a sua imprudente e até inutil indagação.
Chegado o dia do embarque, Madureira conduziu Luiz da Cunha a bordo, e ahi lhe disse que o capitão do navio lhe entregaria no Rio de Janeiro seis contos de reis, e algumas cartas de recommendação para negociantes portuguezes, que deviam dirigil-o na carreira mais prospera do commercio.
A essas horas, Assucena, ajoelhada no seu oratorio, pedia ao espirito de Bernabé Trigoso que não desamparasse o desgraçado, e lhe alcançasse de Deus para ella a bemaventurança, quando as suas virtudes a remissem das culpas na balança da divina justiça. A viscondessa de Bacellar entrou n'esse momento, a contar á filha o pasmoso procedimento de Luiz da Cunha, pagando as suas{109} dividas, sem que ninguem descobrisse d'onde poderiam vir-lhe vinte e tantos mil cruzados. Rosa Guilhermina ouvira de seu marido a espantada narração do successo, e não podéra ser superior ao pasmo de José Bento. Sem algumas suspeitas, admirou a impassibilidade de Assucena, quando o caso não era de se ouvir sem pasmo.
—Seria essa mulher com quem elle tem vivido?!—perguntava a viscondessa.
—Qual mulher, minha mãe?
—Essa dissoluta, que o teve á sua mesa?...
—Não foi, minha mãe... Fui eu.
—Tu!