—Está, portanto, resolvido a sahir?
—Se fosse já, era uma fortuna.
—Ha de primeiro cumprir a sua sentença; ha de aqui receber os recibos dos seus credores, e para isso queira dizer-me quem elles são.
—Não me recordo... Deixemo-nos de credores, meu amigo...
—Um annuncio nos jornaes convidando-os a apresentarem os seus creditos, será sufficiente...
—Mas não lhe disse eu já que devo mais de oito contos, que são vinte mil e tantos cruzados?!
—Serão pagos.
—Mas quem é que se interessa tanto por mim?! O senhor ha de ter a bondade de me dizer a quem devo beijar as mãos. Isto parece-me um lance de novella! Já me lembrou se andaria aqui segredo do meu nascimento!{105}
—Do seu nascimento?! pois o seu nascimento é um segredo para alguem?
—É metade d'um segredo, pelo menos para mim. Não sei quem foi minha mãe, porque meu pae, que tinha razões para saber melhor que ninguem quem ella foi, nunca m'o disse. Imaginei que essa senhora viveria ainda, e teria mais dinheiro que eu... Não posso atinar com outra pessoa... Não tenho amigos, não sei d'onde me possa vir esta restituição, não me consta que seja o herdeiro presumptivo d'algum capitalista... emfim, aqui anda mysterio que o senhor padre póde pôr-me em linguagem portugueza, e eu prometto guardar inviolavel segredo, se fôr necessario esconder a beneficencia como se esconde um crime.