—Parece-me que estás cançado de mim...—continuou Ricarda, offendida pelo silencio de João á ultima pergunta, que lhe custára a ella uma dôr de coração, um desgosto amargo do seu amor proprio.

—Cançado de ti... Não, Ricarda... O amor não se cança assim. Não tenho tido, desde o primeiro dia em que me viste, uma pequena desigualdade comtigo. Tudo o que te prometti foi pouco para o grande sacrificio que me fizeste; mas, se te não dou mais, é porque mais não póde dar o coração. Podésses tu ser minha esposa... podésse eu convencer-te...

—De que me amas? Não é assim que se convence{13} uma mulher... O que eu quero é a tua alma... Não me lembrou nunca ser tua mulher, como se diz da que se dá por obrigação de casamento, para ser assim mais feliz... Não fallemos n'isto... Essa palavra esteve para ser a minha morte... não poderá nunca trazer-me felicidade. Ainda que eu hoje fosse viuva, não quereria ser tua mulher, João.

—Porque?!

—Porque me obrigarias um dia a ser criminosa, como fui...

—De que modo te obrigaria eu a seres criminosa?!

—Considerando-me apenas uma companheira de casa, a quem não é obrigação fazer carinhos, porque a mulher casada é uma posse sem disputa, é uma roseira que dá uma flôr, e sécca para nunca mais reverdecer... Eu sei que fui muito amada, muito estremecida por...

—Por teu marido...

—Sim... mas, dous mezes... e, ao cabo de dous annos, esse homem dava-me a importancia que se dá a um socio d'uma casa commercial, e dizia-me que não vira ainda as suas lições, quando eu me sentava ao seu lado com receio de ser grosseiramente despresada com o seu silencio. Todas as tuas qualidades pessoaes me não fariam impressão nenhuma, João, se aquelle homem me soubesse ao menos mentir.

—Foi preciso que elle te despresasse para eu te possuir o coração.