Estes proverbios explicam a gargalhada de Liberata á muito séria proposta de Luiz da Cunha.

—Estás doudo!—accrescentou ella, batendo as palmas—Tragam-me{94} uma camiza de força para o meu pobre Luiz, que endoudeceu, e quer casar comigo!... Tu fallas sério?!

—Fallo sério... fallo-te com o coração.

—Pobre coração! Pois ainda tens d'isso? Não nos fica bem fazermos de creanças... Eu não sou Assucena, meu trampolineiro...—dizia ella, anediando-lhe as guias do bigode—Que será feito d'essa illustre menina?

—Não sei... dizem que está no Minho em uma quinta do padrasto... Mas diz-me cá, Liberata... Achas disparate o nosso casamento?!

—É uma bestialidade... Vou provar-te que nunca se disse mais tremenda asneira. Se casassemos, qual era o nosso futuro? Naturalmente seria, pouco mais ou menos, o que era ha dous mezes. Eu teria um amante rico para sustentar o meu marido pobre.

—Mas hoje não acontece assim.

—Se não acontece hoje, acontecerá ámanhã. Desde que o conselheiro foi despedido, gasto das minhas economias; mas as economias vão gualdidas. A sege e os cavallos estão á espera de comprador; os brilhantes irão depois da sege; depois dos brilhantes, meu caro Luiz, é necessario adquirir outros. Ora agora, imagina tu que és meu marido, e vê lá se te convém ficar atraz da porta, muito caladinho, para não assustar o amante.

—Mas eu pensei que renunciarias ao luxo que tens hoje, e te sacrificarias ao amor e á posse d'um só homem.

—Creancice! A primeira victima eras tu, e a segunda eu, e a terceira os credores. Pois tu pensas que eu valho alguma cousa se despir este vestido de sêda, com rendas de Escocia, e vestir um vestidinho de chita de uma costureira?! Parece que não tens gastado cincoenta mil cruzados a teu pae! Não te lembras que, ha dous annos, me deste um luxo extravagante para me phantasiares, como tu dizias, uma d'essas romanas que pareciam cahidas do ceo n'uma nuvem de perfumes?! E agora estavas resolvido a pôr um estanque, e mandar-me vender charutos ao balcão!