—Para salval-a?

—Sim, para salval-a.

—Morreria, mas renunciava...

—Melhor lhe fôra então morrer!...—disse em voz soturna Bernabé, afastando a viscondessa esvaida dos braços da filha, e fixando n'esta um olhar de severa reprehensão. A neta do arcediago deixou cahir os braços, e pregou os olhos no chão. Ora o rubor, ora a pallidez revesavam-lhe no rosto afflicto. Dôr e vergonha, amor e arrependimento, esperança e desespêro, eram por ventura as variadas sensações que lhe occorreram, atropellando-se para lhe fazerem mais difficil a consciencia da sua situação. A infeliz não podia combinar as palavras esperançosas do conego com o repellão e olhar severo que acabava de soffrer.

—Venha comigo, menina...—disse D. Perpetua receiando algum accidente dos que lhe davam depois do dia anterior.

—Eu não vou sem que minha mãe me falle.

—Deixe-a tornar a si; depois, ficará sósinha com ella.

Assucena obedeceu. Minutos depois, Bernabé sahiu da sala em que ficava a viscondessa, esperando a filha, deitada n'um canapé.{81}

O conego disse quasi ao ouvido de Assucena, que entrava na sala:

—Perante Deus é responsavel pela vida de sua mãe. Ella não lh'o dirá; mas digo-lh'o eu. No dia em que a menina se julgar feliz, amando um infame, matou sua mãe.