Assucena sentiu-se arrefecer do gêlo que começa na alma, e vem em calefrios á sensibilidade exterior. Encostou-se á criada, pedindo-lhe que não perguntasse mais nada. Atravessou, sem murmurar um gemido, sem um queixume, parando exhausta de forças a cada instante, a grande distancia que a separava da rua do Principe. Entrando no seu quarto, cahira de face sobre o leito, não para repousar, mas para reprimir os gritos que podiam ouvir-se no segundo andar.

E ouviram-se.

Era meia noite. A criada adormecêra, indifferente aos gemidos da ama, que lhe não aceitava as imbecís consolações. Assucena, só e ás escuras, porque a vela se extinguira, abrira a janella do seu quarto; mas a noite de Janeiro era tenebrosa e frigidissima. A filha da viscondessa de Bacellar tiritava de frio, de susto, e até de terror de si mesma. Sentava-se sobre a cama, lançando sobre os hombros o cobertor. Fitava o ouvido a cada tropel remoto de passos. Desenganada, ajoelhava com as mãos erguidas pedindo a Deus que lhe désse vida até que a luz do dia lhe deixasse procurar Luiz. Assucena passava por um d'esses soffrimentos em que se julga possivel a morte instantanea.

Depois, as trévas da noite romperam-se em relampagos successivos, e o quarto illuminava-se de clarões azulados. A aterrada menina correu a fechar a janella, quando uma chuva fria lhe açoitou as faces. A dôr immensa só tinha expansão nos gemidos. Lançou-se sobre o leito sem reflectir que a escutavam, invocando Maria Santissima,{64} pedindo compaixão a sua mãe, chamando Luiz com alarido de demente, e soluçando de modo que, a distancia, simulava uma mulher que se contorce entre os braços que a matam pela asphixia.

No andar de baixo morava uma devota senhora, que accendia duzias de velas, e rezava duzias d'orações a Santa Barbara. O quarto d'ella estava ao pé do de seu irmão, o conego Bernabé Trigoso, que dormia no quarto, cujo tecto era o pavimento do de Assucena.

Foi elle o primeiro que ouviu os gemidos, os passos, o abrir e fechar da janella, o ranger do leito, e ultimamente os gritos.

Chamou sua irmã, e disse-lhe que escutasse. D. Perpetua Trigoso applicou o ouvido, e affirmou que não era illusão do conego os estranhos gritos da mysteriosa menina que alli morava.

—Vamos nós lá, Bernabé?—disse ella quando seu irmão lhe pedia o capote, e a mandava sahir do quarto para elle se vestir.

Subiram ao terceiro andar cada um com sua vela mystica, das que a senhora D. Perpetua accendêra á santa das trovoadas, e bateram á porta.

Assucena, sem pensar nem discernir, como desintorpecida d'um lethargo, foi apalpando na escuridade, imaginando que era aquelle o bater de Luiz da Cunha. Abriu com precipitação, e recuou espavorida ao aspecto um pouco funebre de Perpetua que lançára um chale de cachemira escura sobre a cabeça, franjada na testa por cabellos brancos. A figura magra, macillenta e cadaverica do velho, não era menos assustadora, vista ao clarão da vela que lhe betava de sombras as rugas profundas do rosto.