A filha de Rosa entrára no convento, onde encontrára faceis amigas que se interessavam em remediar-lhe com conselhos a profunda tristeza. Os conselhos lisongeavam-na. Jubiladas no amor, as commendadeiras, illustres em nascimento, e até illustradas no espirito, olhavam as cousas d'este mundo, pouco mais ou menos, como ellas são. Menina de dezoito annos, melancolica, soffre de amor: entenderam as mais penetrantes. Conhecido o diagnostico da enfermidade, era infallivel a pharmacia, muito acreditada nas benedictinas. A quem penava do coração applicava-se-lhe amor a grandes dóses. Ora a barateza da droga nunca deixou morrer ninguem á mingua de antidoto.

O que se dizia a Assucena era que amasse, que recebesse{51} no lucutorio quem quer que fosse, que se não deixasse possuir d'uma heroica abnegação, porque o mundo não valia o sacrificio. A sua mais presada amiga, secular tambem, que passava tres mezes no convento, e nove na sociedade, tomou ao seu cargo a voluntaria missão de convidar o filho de seu primo João da Cunha a tomar chá na sua grade, em dia dos seus annos.

Assucena foi surprendida por Luiz da Cunha, que nunca vira tal prima, nem entrára em tal convento. Aceitára o convite porque desejava mostrar que lhe era grato o pretexto de que Assucena se servira para chamal-o ao convento.

A prima de Luiz da Cunha era uma senhora desempoada. Na sua desprevenida intelligencia, dous e dous eram quatro, e, segundo ella, toda a mulher devia ter um amante, e particularmente aquella que reza vesperas n'um côro em quanto as outras elegem entre dezenas de vestidos o que ha de realçal-a mais no baile, ou no theatro. Eil-a, pois, em opposição com os estatutos de todos os patriarchas, que apadroaram conventos.

Desde esse dia as visitas de Luiz da Cunha a sua prima eram quasi diarias. Na grade de sua prima, as mais das vezes, quem Luiz encontrava era Assucena.

A viscondessa sabia d'estas visitas, e não as prohibiu a sua filha, despresando assim as insidiosas prevenções da intriga, que d'este modo procurava vingar-se de odios domesticos a D. Leonor Machado, a prima prestadia de Luiz da Cunha. Os reiterados avisos a Rosa Guilhermina sahiam do convento. Assucena ignorava-os, porque sua mãe, concebendo os melindres d'um amor contrariado, não fallava de proposito em Luiz da Cunha, nem consentia que sua filha de proposito lhe fallasse n'elle.

O visconde tambem teve as suas duas cartas anonymas, a respeito dos escandalosos amores da sua enteada, protegidos pela escandalosa secular Leonor Machado.

José Bento levou ao conhecimento de sua mulher as informações, que recebera, e Rosa, por assentir a seu marido, de quem dependia o futuro de Assucena, impôz-se a dolorosa obrigação de prohibir a sua filha intelligencias com Luiz da Cunha.

Assucena recebeu silenciosa a correcção; mas, em silencio,{52} se promettia não lhe dar o pêso que sua mãe lhe dava. Era tarde para ella, e tarde para o filho de Ricarda, que acabava de convencer-se que o amor, e por ventura o patrimonio de Assucena, alcançado por astucia, faria as delicias da sua vida.

Luiz continuou sem obstaculo as suas constantes attenções á prima. O visconde, informado de novo, mostrou ao seu devedor João da Cunha as cartas que recebêra. João da Cunha, admoestando o filho, encontrou-o um pouco parecido com o que fôra em tempo, respondendo-lhe que a reforma de costumes não consistia na renuncia completa dos mais innocentes prazeres do espirito. Como não fallou em materia, o caso não era tão pavoroso como o afiguravam os timidos informadores do padrasto.