Que tinha, pois, Ricarda de seductora?
O que ella tinha! Sabem o que é ter um coração de lume, lume que não se esconde, em quanto ha olhos que o dardejem em lavaredas electricas? Sabem o que é o nervo optico, ferido d'esse galvanismo da alma, que se lhe côa nas fibras, que se communica aos musculos, que se injecta na pupilla vertiginosa, que se lança fóra do corpo em scintillas contagiosas, até vos pegar uma febre, que se não cura com a quina? Sabem o que é a voluptuosidade da mulher dos tropicos? Não crêem que o sol, a prumo, se infiltra n'ella, e a queima desde os quatorze annos, com uma sêde insaciavel de gosos ternos, morbidos, e elanguescidos como a requebrada cantilena d'uma carioca?
Ricarda, além de tudo isto, tinha cousas de encantar. Dizia uma cousa singela com tantos artificios de graça, de meiguice, e de cansaço, que mais valiam as simples palavras d'ella, que os beijos mais suavemente chilreados de uma europêa. As perolas, que tão lindo lhe faziam o sorriso brando, raro se mostravam, porque, se os olhos diziam tudo, o sorriso não lhe vinha auxiliar os gestos. E a flexibilidade das fórmas? Que donaire, que gentileza,{8} que perfeição de estudo, ou que naturalidade tão caprichosa em enriquecêl-a!
Bem haja, pois, João da Cunha, que adorou a omnipotencia do Creador, sem perguntar ao abbade de Salamonde a gravidade da culpa, adorando a mulher do seu proximo, de mais a mais, seu contemporaneo. Bem haja, digo eu meio resolvido a rasgar este periodo, se o leitor, por uma sobrenatural revelação, me não diz que bem póde ser que o academico não esteja condemnado pela mesma razão que Magdalena foi salva. Amar muito! Sem esta virtude, Deus sabe se a acta das santas nos faria menção da dedicada galilea!...
Não quero inculcar a santidade de João da Cunha. Creio até que o homem nunca se lembrou d'estas honras posthumas, e a universidade, com quanto produza grandes doutores para a mitra, ainda não deu um para a igreja. O mathematico era capaz de renunciar á canonisação se lhe pedissem a troco o sacrificio de abjurar o amor, que o trazia tão longe da sciencia, e tão avêsso ás obrigações academicas, que, antes de Paschoa, tinha perdido o anno por faltas, e dissera incriveis disparates em duas lições, que o desacreditaram.
João da Cunha soubera insinuar-se na confiança do brazileiro. Era sua visita em vespera de feriado. Fallava francez com Ricarda, e solvia, em mathematica, as difficuldades que o obtuso marido não vencia.
Seria impertinencia alongar de sobejo este episodio, que não vem ao essencial da nossa historia. O leitor, amigo da concisão, quer que eu lhe diga se aquella mulher de fogo se conservou incombustivel, como o amiantho, na presença do estudante. Não, senhores. Fosse pelo que fosse, a brazileira parece que não tinha ideias muito claras a respeito dos deveres conjugaes. Seu marido, allucinado pela sciencia, retirou-se cá de baixo para tão alto que não podia vêr a terra onde sua mulher vacillava ao pé de um abysmo. Acordou, uma manhã scismando n'um x, que o fizera adormecer ás duas horas. Chamou sua mulher, que o costumava saudar em francez do quarto proximo. D'esta vez não ouviu lingua alguma das que se entendem no globo. Entrou no quarto para contemplal-a no somno feliz de quem não estuda mathematica. Achou um leito{9} vazio. Correu a casa toda, chamando-a, com sobresalto, que não era ainda o da certeza. Nem a criada encontrou! Volveu ao quarto de Ricarda. Reparou que sobre a commoda não estava um cofre de marfim. Era o adereço de Ricarda: os seus brilhantes que valiam uma fortuna; os mais ricos diamantes que deram as Minas Geraes; as melhores pedras do Novo-mundo, o valor de quatro dotes opulentos!
Desde esse dia, o brazileiro não tornou ás aulas. Sabe-se que foi curado d'uma congestão cerebral. Viram-no, dous mezes depois, sahir de Coimbra, sem estender a mão aos amigos, compadecidos do seu infortunio. Passára por entre elles sem os vêr. Reputaram-no doudo, e vingaram inutilmente a affronta que o enlouquecêra, execrando o infame João da Cunha que lhe roubára sua mulher.
Mas, um dia, dez mezes depois, passára o brazileiro na rua do Ouro, em Lisboa, e vira n'uma taboleta de ourives um annel com uma esmeralda, cravejada entre doze brilhantes.
—Quanto pede por este annel?—perguntou elle.