E seguiram-se assim, sem alteração para Assucena, os dias de seis annos. Em 1848 morreu a filha do arcediago{172} quasi repentinamente: mas desde muito que o seu testamento estava feito. Assucena era herdeira d'uma quinta no Minho, unica disposição que a mulher de José Bento podia legar.

Este golpe confirmou as conjecturas do padre Madureira. Assucena teve passageiros accessos de demencia. Convalescida, ordenou ao padre que lhe trouxesse um tabellião. Á solemnidade e bom tino da supplica, não resistiu o padre desconfiado.

Assucena dava o uso-fructo da sua quinta ao beneficiado Madureira, em quanto vivo, com a condição de elle fazer cumprir o legado de tres missas diarias: uma por alma do conego Bernabé Trigoso; outra por alma de D. Perpetua Trigoso; e outra por D. Rosa Guilhermina, sua mãe. Por morte do padre, a quinta passaria á Santa Casa da Misericordia com as mesmas condições para sempre.

Madureira, sabendo nas vesperas da partida, que Assucena se retirava para a sua quinta de Caldellas, na provincia do Minho, admoestou, supplicou, mas não conseguiu demovêl-a do proposito.

—A minha sahida d'esta casa—dizia ella—é o maior sacrificio que eu posso fazer. Deus m'o acceitará, porque no serviço de Deus me sacrifico. Preciso ser grata aos bemfeitores mortos, e ao vivo: os suffragios para os mortos, e a posse d'esta quinta, meu purgatorio e paraizo, para o meu bemfeitor.

—E deixa o seu bemfeitor com tamanha presença d'espirito, senhora D. Assucena!

—Deixo-o com a mais violenta dôr de coração. É o cilicio com que martyriso o meu espirito. Deus me levará em conta esta renuncia da convivencia com o meu bom amigo.

Madureira não podia constrangêl-a, receando abreviar uma loucura irremediavel.

Acompanhou-a ao Minho, na primavera de 1849. Estiveram alguns dias no Senhor do Monte, onde a melancolia de Assucena parecia desopprimil-a, alargando-lhe o coração pela amplitude do céo, que, n'aquelle local, convida a um scismar suavissimo, a uma santa saudade d'outra existencia, que deve ter precedido a das dôres terrenas.

A quinta de Caldellas é um eden. As aguas prateadas{173} do rio Homem banham-lhe as orlas verdejantes. Por entre as franças das acacias, enastradas no salgueiro, suspira a viração rescendente do perfume das flores maninhas. Em antigos tempos, o genio bucolico de um possuidor creára alli tudo que a invenção póde realisar de mais viçoso, de mais lympida frescura, de mais poetico devaneio.