¿Que feiticeira, ou que magico, operou tamanho prodigio? o Trabalho, e a Natureza.

O pouco vigor que lhe restava, empregou-o, como quem põe a ultima peça de cobre n’um jogo de parar, na tentativa de um viver duro e sóbrio; metteu-se ás estradas, obscuro moço de cavalgaduras; sujeitou-se a todos os caprichos dos viajantes, das estações e do acaso; despejou a pé, a léguas e léguas, e muitas vezes de um só fôlego, os caminhos mais asperos, como os suaves, por soes e chuvas, por neves e ventanias; dormiu contente onde a sorte lh’o deparou: aqui sobre o feno, ou ao lume; além entre lençoes; mais longe na terra nua e humida; a fome, cosinheiro optimo, lhe temperou o pão negro e os legumes grosseiros; o costume dentro em pouco lhe tornou agradavel o remedio, a principio amargoso. O exforço, que lhe reconquistára a existencia, ficou para lh’a guardar.

A historia d’aquelle mancebo podéra ser lição para Nações. O luxo e o desconcerto tambem as matam, como aos individuos. Tambem, como aos individuos, o Trabalho e a Natureza as podem ressuscitar.


De mais, a occupação agricola para um povo nem sequer é desabrida. Se tem espinhos.... verdura, flores, e frutos lh’os disfarçam. Se a sua lida é continua, a variedade a acompanha; se lhe chamam canceira, ella é saude; se pobreza, ella a fonte de todos os haveres; se obscura e humilde, ella a menos dependente; se rude, ella a mais cheia de conhecimentos praticos, a mais visinha do Creador, e, como tal, a mais fecunda em inspirações.

Accrescentemos que para Portugal não ha já hoje outra occupação possivel.

¿A conquista? não. ¿Os descobrimentos? não. ¿As minas? não. ¿A industria? não. As nossas conquistas, os nossos descobrimentos, as nossas minas, a nossa industria, é o solo da Patria. É o unico mister para que ainda nos restam braços, instrumentos, forças, e liberdade. É o unico lavor, em que nenhumas invejas estrangeiras perigosas hão-de vir perturbar-nos.

O Sceptro de D. Affonso Henriques, e o de D. Manuel, perderam-se; o de D. José quebrou-se. Sceptro, e não escárneo, só pode ser hoje no Throno Portuguez o de D. Sancho I, e o de D. Diniz.


Em um dos nossos precedentes artigos suscitámos a ideia de Côrtes lavradoras.