IV

Quatro dias depois, apresentavam-se a Nicolao as duas mulheres pobremente vestidas de saias de chita já usadas, de cajados na mão e alforge ao hombro. Este trajo tornava Sofia mais baixa e dava-lhe á fisionomia uma expressão de austeridade.

—Parece que passas a vida a jornadear de convento em convento! disse-lhe o irmão.

E ao despedir-se d’ella, apertou-lhe a mão com energia. Mais uma vez, notou a velha esta simplicidade e esta calma. Decididamente, não eram pródigos de beijos nem de demonstrações de estima, e comtudo, mostravam-se tão sinceros um para o outro, tão sollicitos para com os estranhos! Porque nos meios onde Pélagué vivera, todos se beijavam muito, todos se animavam com bonitas palavras, o que não impedia que se mordessem como cães damnados.

Atravessaram as viandantes a cidade, alcançaram o campo e tomaram a vasta estrada bem calcetada, orlada de velhas bétulas.

—Não estará cansada? inquiriu a mais idosa.

—Julga que não estou costumada a andar? Pois engana-se...

Jovialmente, por entre risadinhas, como se tratasse de travessuras de criança, Sofia entrou de contar os seus feitos de revolucionária. Vivera já com um nome supposto, servindo-se para isso d’um passaporte falsificado; disfarçára-se para fugir aos espiões, transportára para diversas cidades muitos quintaes de brochuras proíbidas. Tinha arranjado a fuga a muitos companheiros exilados, acompanhára-os ao estrangeiro. De uma vez, montára na sua própria casa uma imprensa clandestina; e quando os gendarmes, sob denuncia do delicto, tinham vindo proceder ás buscas, disfarçara-se ella de criada, minutos antes d’elles chegarem e saíra, cruzando-se com os inquisidores já no limiar do predio. Sem uma capa, com uma simples mantilha pela cabeça e de amotolia de petroleo em punho, percorrera de outra vez a cidade de extremo a extremo, sob um frio rigoroso, em pleno inverno. D’outra occasião, porque se tivesse dirigido a casa de uns correligionarios, n’uma cidade distante, ia a subir a escada quando percebeu que havia lá policia, varejando. Era tarde para saír do prédio; bateu portanto com o maior atrevimento, no andar de baixo. Entrou em casa de gente que não conhecia, de mala na mão, e tratou de pôr a claro o acontecido.

—Os senhores podem denunciar-me se quizerem, mas não os julgo capazes d’isso declarára ella convictamente.

Atrapalhadissimos, não fecharam os olhos toda aquella noite, julgando a todo o momento que lhes vinham bater á porta. Comtudo, não a denunciaram e, chegada a manhã, mangaram, como ella, com a polícia. Tambem lhe acontecera vestir-se de irmã da caridade e fazer viagem no mesmo compartimento e no mesmo assento do vagon em que ia um espião encarregado de lhe seguir a pista, o qual, para fazer valer a sua esperteza, se lhe puzera a contar como era que procedia em tal diligencia. Estava certo o homem de que Sofia ia n’aquelle comboio, em segunda classe: e a cada nova paragem, descia e commentava regressando para o pé da pseudo religiosa:

—Não a vejo... Provavelmente vae a dormir. É que essa gente tambem cansa... Levam uma vida tão dura... tal qual a nossa!

A outra ria com estas historias, olhava para Sofia com affecto. Alta e magra, a joven senhora caminhava com passo leve mas firme; tinha os pés fortes e bem feitos. Na maneira de andar, no falar, no proprio timbre da voz, decidida se bem que um pouco baça, em toda a sua figura esbelta, transparecia uma como bôa saude moral, uma audacia alegre, um desejo de ar e de espaço, e os seus olhares para tudo se dirigiam com uma expressão de juvenil contentamento.

—Olhe aquelle pinheiro tão bonito! exclamou, mostrando uma arvore á sua companheira, que parou para vêl-a. Mas o pinheiro, afinal, não era nem maior nem mais folhudo que os outros.

—É verdade, bonita arvore! repetiu, risonha.

—Olhe uma cotovia!

E os olhos pardos de Sofia brilharam de satisfação. Ás vezes, com movimentos flexuosos, baixava-se, apanhava uma flôr e acariciava-lhe amorosamente as petalas tremulas com o ligeiro contacto dos seus dedos afusados e ageis. E trauteava canções meigas.

Pelo caminho, cruzavam-se com peões ou campónios empoleirados nas suas carroçadas, que lhes diziam:

—A paz seja comvosco!

Brilhava um lindo sol primaveril; todo o vasto azul resplandecia; aos dois lados da estrada, estendiam-se densas florestas de madeiras resinosas, herdades de um verde muito vivo; cantavam passaros, o ar tepido e perfumado acariciava brandamente as faces.

Tudo contribuia para approximar Pélagué d’aquella mulher de alma e de olhos tão limpidos; e involuntariamente, chegava-se mais para ella, esforçando-se por igualar a sua andadura pela d’ella. Comtudo, ás vezes, destacava-se das frases de Sofia uma expressão demasiado viva, demasiado sonora, que a Pélagué se afigurava superflua. Então, era tomada de inquietação:

—Estou vendo que não vae agradar ao Rybine...

Mas um instante depois, Sofia voltava a falar com simplicidade, cordialmente, e ella de novo a olhava com ternura.

—Como é nova ainda! suspirou.

—Ora! olhe que já tenho trinta e dois!

A outra riu.

—Não é isso que quero dizer... Á primeira vista parece ter mais idade... mas quando se repara nos seus olhos, quando a ouvimos falar, fica-se muito admirado, parece uma menina... A sua vida é desasocegada, penosa, cheia de perigos... e todavia, tem o coração alegre...

—Não vejo em que a minha vida seja penosa, nem posso imaginar outra mais interessante e melhor do que esta...

—E quem ha de recompensal-a dos seus trabalhos?

—Se já estamos recompensados! respondeu Sofia, em tom que á outra pareceu denunciar fundo orgulho. Arranjámos uma existencia que nos satisfaz; que mais havemos de desejar?

A mãe olhou para ella furtivamente e baixou a cabeça, repetindo a si mesma:

—Não vae gostar nada d’ella, o Rybine...

Aspirando a plenos pulmões o ar tepido, as duas mulheres caminhavam em passo lento mas firme. A Pélagué parecia-lhe que andava em romaria. Lembrava-lhe aquillo a sua meninice e a pura felicidade que a animava quando, nos dias de festa, partia da aldeia em direcção a algum mosteiro, onde houvesse uma imagem milagrosa.

De vez em quando, Sofia entoava com a sua voz novas canções em que se falava de amôr e do Ceu; outras vezes, punha-se de subito a declamar estrofes celebres que celebravam os campos e as florestas, o Volga; e a outra escutava-a, prazenteira, meneando, sem dar por isso, a cabeça ao rythmo do verso, cuja melodia a enfeitiçava.

N’aquelle coração, tudo era paz, carinho e doçura, como n’um velho jardinsinho, n’uma tarde de estio.