NOTAS DE RODAPÉ:
[1] Na Revista Universal, artigo 1378 do 2.ᵒ volume p ponderámos falando no orçamento do Ministerio da Guerra.
IV
Continuação
SUMMARIO
A organisação de Sociedades, já proposta, não se deve regeitar, ainda que se reconheça por defeituosa.—Deseja o autor, que todos os homens de algum poder sejam utopistas como elle.—Liga promotora dos Interesses materiaes do Paiz; seu Elogio, com uma restricção.—Um Banco para adiantar dinheiro aos lavradores fará muito beneficio, mas só quando Parlamento e Governo agricolas houverem proporcionado ao lavrador instrucção, dado protecção aos seus trabalhos, aberto caminho, sahida, e emprego aos seus productos.—Outra vez Sociedades agricolas.—Propõem-se succintamente alguns alvitres.—Os estatutos das Sociedades uteis não pagarem direitos.—A importação de coisas uteis á Agricultura, premiada.—Premios aos melhores lavradores, aos introductores de novidades agrarias, aos autores e traductores de obras agronomicas praticas.—Quintas exemplares.—Mandae mancebos a outros paizes, habilitar-se para vir ensinar Agricultura.—Escolas de Agricultura volantes.—Projecto de Lei de premios.—Ordem do Arado.
A organisação que deixámos proposta é susceptivel de modificações e melhoramentos; firmemente o acreditâmos. ¿Que se segue d’ahi? ¿que se regeite, porque em vez de optima é só boa? ¿porque em vez de boa é só medíocre? Absurdo.
A consequencia discreta e prudente é que, examinada, se emende; emendada, se approve; approvada, se experimente; e confirmada pela experiencia, se conserve, se radique, se abençôe, e se aproveite.
¿Não virá porém prematuro o alvitre? ¿Não estaremos cantando alvoradas a quem não está para acordar? ¡Ainda mal, que bem pode ser isso verdade! N’esse caso, desde já acceitâmos, antes que nol-o imponham, o epitheto de loucos; costumado e universal castigo de toda a vontade generosa, que primeiro mette o pé á vereda que algum dia tem de ser estrada.
Oxalá, todavia, que alguns loucos sublimes, convencidos, como nós, de que já não temos salvação possivel senão pela Agricultura, e de que Portugal, como o Antheu da fabula, derrubado pelo Hercules do luxo, só da terra pode reassumir as perdidas forças, appareçam intrépidos a apostolar Agricultura; uns na Imprensa, que é a grande charrua de desbravar entendimentos; outros na tribuna, que é onde a rasão publica se concentra em Lei; outros no Governo, que é onde até sem Lei, não só ha, se não que sobram, forças para o bem; outros finalmente, e sobretudo, entre os cabeças administrativos, e os cabeças espirituaes do Povo.
Para esses irmãos nossos em caridade e em patriotismo, é que vamos ainda escrever algumas poucas linhas das nossas solitarias utopias.
Semeie o homem, que Deus a seu tempo fará nascer.
N’este momento lemos com a mais viva satisfação, em carta que nos chega de Lisboa, o seguinte:
«Para melhorar a nossa Agricultura organisou-se agora aqui uma Sociedade, ou, por melhor dizer, Companhia, com o titulo de Liga promotora dos Interesses materiaes do Paiz, presidida pelo sr. Ayres de Sá Nogueira. O fim é agricola. Já celebraram duas sessões no salão grande do theatro de D. Maria II. Na ultima leu o Presidente um projecto, que reputava ancora de salvação, segundo o qual se deve crear um Banco rural em Lisboa, com o fundo de vinte milhões, em dinheiro, inscripções, apólices, tendo este Banco filiaes em todas as terras do Reino.»
¡Bemvindo seja, e vingue, e prospére abençoado nas terras de Portugal, este tutelar pensamento! Filho é elle, talvez, do que já em 13 de Fevereiro d’este anno se propunha, se acceitava, e se applaudia na Sociedade promotora da Agricultura Michaelense, e que os nossos leitores se recordarão haver lido a paginas 36 e 37 do jornal d’aquella Sociedade (Assignalamos esta circumstancia, porque, se o alvitre foi de gloria para San-Miguel, a adopção do alvitre bom não honra menos a Portugal)[2]. Sim; é esta uma providencia, que alegra, e retinge de esperanças bem verdes o solo sobre que se alevanta; é como nuvem chuvosa, que se estende sobre o terreno requeimado e empobrecido do estio; todos os rostos se riem á sua aproximação; os visinhos dão aos visinhos os parabens; todos saem alvoroçados a receber-lhe as primeiras aguas; os rebanhos, mesmo a festejam; as aves a cantam, sacudindo as azas humidas; pela superficie da vegetação corre um frémito voluptuoso.
Sim; grande e grandioso é o beneficio; ¿mas será elle bastante? não: as necessidades agrarias são variadas, numerosas, digamos infinitas. Mal se acode a uma, se a todas se não acode; pelo menos a muitissimas e ás principaes.
Suppomos, imaginamos já, o oiro e a prata a choverem á porta do lavrador na vespera da sementeira, da plantação, do arroteamento; ¿e que digno uso fará o triste rustico d’esses meios de acção, d’essas forças que se lhe liberalisam, d’essa colheita, que se lhe antecipou ao trabalhar, se lhe minguam luzes de sciencia alheia, ou sua, que o dirijam? ¿vontade intima, que lhe dê impulso? ¿certeza, ou quasi certeza, de consumo ao que vai produzir? ¿Que fará emfim, se, ainda tendo tudo isto, Leis viciosas o avexarem no seu officio, lhe arrancarem os operarios e os filhos para a milicia, lhe multarem com tributos o suor, como se devêra multar a ociosidade, o luxo, e os vicios, e lhe exposerem a herdade a ser talada pela guerra civil, os bois do seu arado comidos, as ovelhas do seu adubío espingardeadas, o carro e as arvores do seu pomar convertidos em fogueiras para aquecer a tropa rôta, ou a guerrilha descalça e bandoleira que transita? N’uma palavra: ¿que aproveitará que o predio se lhe desentranhe em frutos, como uma cornucopia, se a estrada para o mercado não existe, se o rio convisinho, que deve transpôr, não tem ponte, se o que podia carrear-lhe os moios se obstruiu, e apodrece dormente pelas margens usurpadas?
Eis aqui chagas velhas, asquerosas, e envenenadas, que a nossa Agricultura padece em todo o corpo, e para cujo curativo não é sufficiente balsamo um Banco rural.
Se de veras queremos ser salvos, não ha remedio senão soccorrermo-nos a uma reforma e organisação franca, sincera, absoluta, cabal, completissima: Côrtes mais lavradoras que financeiras; mais lavradoras que politicas; ou antes muito politicas por muito lavradoras; Leis agrarias, e mais Leis agrarias; e para todas as anti-agrarias suppressão e execração; um Ministerio da Agricultura fecundo, dadivoso, vigilante, e incançavel como o seu objecto; e, sobretudo, associação universal dos homens bons, dos homens intelligentes, dos homens de sciencia, dos homens de fortuna, dos homens de acção, dos homens de valimento, dos homens patriotas, dos homens de bem, dos homens homens, finalmente.
Repitâmol o, ainda a risco de enfadar, e repitâmol-o, porque é Evangelho: não ha sacrificio, que, por grande, se deva recusar á terra, pois é ella só que possue o segredo, que os estadistas procuram cegamente nos livros e nos calculos. Não é no perseguir uns, no divinisar outros, e no trocar todos com perpetuo e devastador fluxo e refluxo; é no associal-os entre si, e reconcilial-os com a mãe-Terra, que está a condição facillima de todas as venturas.
As Sociedades promotoras, quaes as havemos bosquejado, seriam para o lado dos operarios rusticos pharol, bussola, thesoiro, conselho, estimulo, protecção, refugio, canal para a entrada dos gados, das sementes, dos instrumentos novos, e para a sahida e venda dos productos. Para a parte dos que governam seriam não menos pharol, não menos bussola, não menos thesoiro, não menos conselho, não menos estimulo, não menos protecção, não menos refugio, não menos segurança e felicidade; pois que a felicidade e segurança dos governantes, só da felicidade e segurança dos governados se compõe, e só d’ellas se pode compôr.
Assumpto era este para interminaveis commentarios; mas estreiteza de papel, mas estreiteza ainda peor de vontade em quem nos ha-de ler (ou não ler) nos acovarda.
Dizer tudo, não o podemos; tudo calar não nol-o soffre o coração.
Vamos cerrar em epilogo mais algumas lembranças, que ahi fiquem já, de proposta á consideração das futuras e das presentes Sociedades agricolas, do futuro Ministerio da Agricultura, dos Deputados, e da Imprensa.
I—Se a associação é a mãe dos prodigios; se os que se associam dão, por voluntario tributo, tempo, trabalho, despezas, a um interesse publico; ¿não é repugnante contradicção que o Governo, representante natural de todos os publicos interesses, lhes carregue ainda os onus, e, a troco de uma illiberalissima sancção de seus estatutos, de uma inintelligivel licença para existirem, lhes exija nas secretarias uma avultada somma pecuniaria?
¿Não deveriam antes as associações agricolas, as industriaes, as artisticas, as litterarias, e ainda as de mera e honesta recreação, ser tão livres como são em nossas casas os convites, os bailes e os festejos?
E ainda mais: ¿as uteis não mereceriam, em vez d’esta compressão á nascença, premios e louvores segundo a sua importancia?
II—¿A introducção de tudo quanto pode contribuir para o aperfeiçoamento da Agricultura não deveria ser, da mesma sorte, não só isenta de direito, senão ainda premiada?
III—¿Não seria sobre modo util legislar mais premios, para os que no trato da Agricultura se extremassem? ¿Quem universalisou a cultura da batata, senão o premio? ¿Não deveria semelhantemente havel-os para todos os primeiros introductores de novidades agrarias, para os autores, mesmo para os traductores, de escriptos agronomicos de uso pratico, verbi-gratia imprimirem-se-lhes gratuitamente esses escritos pela Typographia Nacional?
IV—¿Não é já tempo para a creação de quintas exemplares?
V—¿Não seria ajuizadissima providencia enviar mancebos, previamente habilitados, matricular-se nas escolas agrarias praticas das nações adiantadas, os quaes, depois de viajadas a França, a Allemanha, a Inglaterra, a Italia, a Suissa, se recolhessem mestres e regeneradores para entre os seus conterraneos?
VI—Os lavradores, os camponezes em geral, dir-se-hia que, semelhantes ás plantas, lançam não sei que raizes no torrão nativo. A ideia de se desviarem, mesmo para perto e para pouco tempo, lhes repugna; o seu viver tem as demarcações da sua fazenda. E depois, fallecer-lhes-hiam os haveres, para se irem tão longe á escola rural; os haveres, e o animo tambem, que entretanto ahi lhes ficava a herdade sem tutella, a casa sem escora, os paes alquebrados dos annos, sem bordão nem companhia.
¿Não fôra logo uma providencia tão santa como philosophica e fecunda, fazer d’esses regressados viajantes—agrónomos, professores ambulantes de Agricultura, que se fossem de Districto em Districto, e de Provincia em Provincia, doutrinando como Apóstolos? ¿assentando hoje aqui a sua escola, á sombra da arvore rustica no alto do oiteiro, e tomando para thema da prégação os predios circumjacentes; os mais bem cultivados, assim como os mais errados e perdidos? ¿d’aqui a um mez, mais longe, em cima das médas da eira, por uma noite de luar, adubando os preceitos, no meio dos ouvintes apinhados, com episodios da sua Odyssêa por terras alheias, com apraziveis digressões, sempre bem vindas, sobre a Sabedoria e Liberalidade Divina?
Como os Apóstolos antigos, estes evangelisadores do trabalho, em toda a parte assignalariam com milagres a sua passagem; as gandaras se transformariam em seáras debaixo de seus pés, em pomares e mattas por cima de suas cabeças; os baldios, em pastagens; os gados famintos, em lustrosos rebanhos e manadas; a arca mal cheia, em celleiros atulhados; a borôa sem conduto, em meza saborosa; a choça lodacenta, em casinha de sobrado e vidraças, com dois ou tres livros para o serão, um leito alvo e fôfo para a noite, e um oratorio, sempre enfeitado de flores frescas, para as acções de graças quotidianas.
Tudo isto, que é infinito para a felicidade, o haveria feito o passeio de um só homem pela provincia.
Quando elle houvesse passado, mandasseis muito nas boas horas o exactor dos tributos; não havia de voltar com as mãos vazias.
VII—Seja-nos permittido citarmo-nos a nós mesmos, transcrevendo para este papel de consciencia o que em outro papel, tambem de consciencia, escreviamos em 17 de Abril de 1845, por occasião do relatorio do Barão Thénard sobre a admiravel Exposição da Industria franceza n’esse anno. O conselho que então davamos, ninguem dirá que fosse insensato, nem vergonhoso ou ruim de receber, nem que, recebido, podesse ser improductivo; e entretanto.... soou no deserto; não encontrou um só ecco pelo Parlamento, nem pelo Governo, nem pela Imprensa; ainda dormiam todos.
Agora que já a miseria cresceu, em tres annos, mais tres seculos, repetimol-o. Pode ser que já alguem tenha acordado. ¡Oxalá!:
«Reflicta-se no exemplo d’aquella grande Nação, a França, e cuide-se em o imitar. Lá a par da invenção, apparece constantemente o premio. Convidar e abrir salas aos productos da Industria, alguma coisa é, mas não basta. Para os espiritos capazes de crear, seja em que genero fôr, não ha estimulo como o do premio honorifico; e o premio honorifico, as medalhas de oiro, de prata, ou de bronze, recebendo-se como thesoiros, podem custar pouquissimo a quem as dá. Tantos não são os premiaveis n’este pequeno Reino, que hajam taes premios de montar a muito; e ¡oxalá que subissem a contos de réis! A esta verba nova de despeza do Estado corresponderia outra de receita milhares de vezes maior. Fundada no exemplo da França, dos Estados-unidos etc., parece-nos que nenhum serviço mais relevante poderia fazer a Sociedade promotora da Industria nacional, do que offerecer ao Governo, para elle apresentar ás Côrtes, um projecto de Lei de premios para os inventos e aperfeiçoamentos. A nossa proxima futura Exposição poderia sahir dez vezes máis esplendida e animadora, que a passada. ¿E não conviria até, e não seria inteiramente conforme com o espirito d’este seculo, crear uma Ordem nova especial para os benemeritos da Industria, como nos tempos guerreiros se creavam tantas para os extremados no exforço? ¿Será mais honrosa, e será sobre tudo mais util, a heroicidade militar, que o engenho creador e renovador da terra?»
Assim bradavamos nós em favor de todos os generos de Industria.
Hoje limitamos o requerimento á Industria mãe de todas: á Agricultura.
Homens, que o Povo escolhe e envia, e a quem paga, para lhe formulardes em Leis a sua vontade, mostrae-vos dignos de tão alta missão; decretae a Ordem do Arado.
Outubro de 1848.